segunda-feira, 16 de maio de 2011

BERGSON E PLOTINO


Bergson e Plotino

Marco Antonio Barroso*



Acredita Henri Bergson 
que só uma filosofia que se esforce 
para reintegrar a inteligência na intuição 
seria capaz de ofertar algo de positivo à humanidade.

Esta filosofia seria capaz de nos oferecer força de ação e a própria felicidade, sentimento perseguido pela filosofia bergsoniana.[1] 

Atrevemo-nos mesmo a comparar as idéias bergsonianas aqui expostas à filosofia de Plotino, apropriada e repensada, como nos autoriza Henri Hude[2]. Explica o estudioso da obra bergsoniana:[3] “Ele é plotiniano, um pouco como Marx era hegeliano. 
Bergson parece ter pensado 
que o sistema de Plotino estava de cabeça para baixo,
e o repôs de pé.
A queda das almas torna-se 
ascensão das almas.” 
E um pouco antes afirmou:



“Em Plotino, ele [Bergson] deixa de lado tudo o que é platônico [no sentido que atribui a esse termo, isto é, a teoria das idéias e a interpretação que ele lhe confere] e remete o pensamento do Uno à influência judaico-cristã. 

O universo é um todo simpático e é um duplo processo de materialização/espiritualização (…). 

É também um processo de pluralização. Mas Bergson subverte o sistema plotiniano. A pluralização vai no sentido da espiritualização. O devir não é uma queda do Absoluto, mas uma glória para Deus. Sobretudo, o sistema da necessidade deve dar lugar ao relato de uma história universal, onde a personalidade livre é o termo insuperável de toda evolução, que exprime ela própria um ato da liberdade divina: de onde L’évolution créatice. “


Quem também chama a atenção para a proximidade entre o pensamento de Bergson e o de Plotino é Lydie Adolphe. Em introdução ao livro La philosophie religieuse de Bergson[4], da citada pesquisadora, Émile Bréhier nos aponta o profundo conhecimento que esta possui da obra de ambos os pensadores. Portanto cremos ser de fundamental importância expormos algumas das reflexões desta autora sobre estes pontos de contato, uma vez que, tratando dos temas expostos por Bergson em seu livro A evolução criadora, chegamos às semelhanças existentes entre o pensamento deste filósofo e o de Plotino. Afirma Adolphe que


“O próprio Bergson ressalta a analogia de seu pensamento com aquele de Plotino: em uma nota de A Evolução criadora ele explica que a relação que ele estabelece entre a “extensão” e a “distensão” ‘se assemelham de certa forma àquilo que supôs Plotino’, (e seu desenvolvimento onde deveria se assemelhar a M. Ravaisson), quando ele fez do entendimento, não sem dúvida uma inversão do ser original, mas um enfraquecimento de sua essência, uma das últimas etapas da processão.”[5]


O primeiro ponto destacado pela pesquisadora
é a semelhança existente entre os dois pensadores 
relativa à atitude da alma frente ao mundo material.

Segundo Adolphe[6], para Bergson nossa alma apresenta duas disposições: ela pode se interessar por seu corpo ou não, como pode também ter ou não a atenção focada na vida. Em outras palavras, a alma pode ou não se direcionar sobre si mesma. 
Quando se decide pela opção negativa, 
orienta-se pela e para a matéria. 

Destarte, a orientação que a alma confere à sua atenção, mesmo quando está totalmente voltada para a ação fabricadora, ou seja, quando se direciona para a matéria de forma quase absoluta, sendo inteligência, possui em torno de si uma franja de intuição. É esta franja que lhe permite extrapolar os limites da matéria para focar-se em si ou na vida, que é a fonte de onde jorram as almas. Desta forma, inteligência e intuição têm a mesma origem. 

Já Plotino considerava 
a alma como sendo dupla,
possuindo duas funções, 
 afirma Adolphe. 

Para o filósofo neoplatônico, 
a alma era dividida em duas partes:
a parte superior contemplaria o Uno  
do qual seria emanação, 
enquanto a parte inferior se encarnaria 
para governar e organizar a matéria. 

Haveria, entretanto, uma troca permanente entre as duas almas, o que nos permitiria vê-las não como dois entes separados, mas como um apenas, importando somente a direção de sua atividade. Este seria o nous.[7] “Pode-se afirmar, transpondo para a linguagem bergsoniana, que em torno da percepção consciente, há uma “franja” que bem poderia assinalar a presença mais freqüente da parte contemplativa.”[8]


Outro ponto levantado pela comentadora seria o da união das almas pela participação que estas têm na fonte comum, o Uno. Esta última seria, ela mesma, fonte de emanação da unidade do ser, ao qual se remeteriam todos os demais seres. Esta seria a fonte de simpatia que uniria todos os seres.

A alma isolada no corpo 
não passaria de um reflexo passageiro 
da alma universal. 
Todas as almas possuem, portanto, 
a mesma fonte.[9] 

Assim como o Uno é a fonte das almas em Plotino, 
o nous é o intermédio daquele com o mundo. 

Para Bergson, esse intermediário 
seria o élan vital que, nos seres, 
se individualiza à procura de evolução. 

Usando uma metáfora criada por Plotino, bem ao modo da filosofia bergsoniana, diz Adolphe que o Uno é como o centro em um círculo, em que todos os raios de uma circunferência dele participariam, nascendo do centro e tendo seu ser nele. 

O centro é o ponto indivisível e a origem de cada um dos raios. Eles avançam sempre ao redor do círculo, em progressão, embora continuem sempre ligados entre si. O centro (Uno) é a “luz” que emana para um segundo círculo, nous (alma), e depois desses dois existe um terceiro que não é de luz, mas que resplandece a luz do segundo que lhe é contíguo, ou o mundo físico.[10] O indivíduo seria então como que uma linha transversal que percorreria os três planos. 

No primeiro, ele teria o contato com o absoluto, ou Uno; e no último, ele é seu corpo. Entre os dois estaria a alma, nous. A inteligência é a alma do homem quando voltada para fora de si, absorvida pela ação. 

A intuição é, ao contrário, 
o movimento desta alma 
pelos diversos planos psíquicos. 

Ela é a faculdade que nos permite a possibilidade de encontrar o caminho de volta para o lugar de origem de todas as almas.

A fusão mística se daria então, 
tanto para Plotino como para Bergson,
nesta volta da alma em sua conversão para o Ser.
 
* Mestre em Ciência da Religião
pelo PPCIR-UFJF, 
doutorando em Ciência da Religião.
Fonte:
Notas de Rodapé
http://www.notasderodape.com.br/index.php/cultura/bergson-e-plotino.html

Sejam fewlizes todos os seres Vivam em paz todos os seres
Sejam abençoados todos os seres.

BERGSON, PONTO DE PARTIDA - MIGUEL REALE

Bergson, ponto de partida




























 Prof. Miguel Reale*


O maior filósofo francês do século passado (1859-1940) anda esquecido, apesar de lhe devermos a restituição da liberdade ao mundo da experiência e o papel da intuição no plano do conhecimento.

É um pensador de formação inicial evolucionista, por ele superada definitivamente no sentido de uma metafísica concebida sobre novas bases, que procurou estabelecer em fecundo contato com as pesquisas científicas. Vejamos em que sentido surge a metafísica bergsoniana, pondo em equação, preliminarmente, o problema do método. 

O pensamento de Bergson, que, sob vários aspectos, assinala o superamento do naturalismo do século 19, baseia-se numa distinção fundamental entre inteligência e intuição, distinção que sob denominações diversas encontramos em outros sistemas, tão penetrante foi a influência do mestre gaulês.


A seu ver, o homem seria senhor
de dois modos ou instrumentos fundamentais de conhecer, 
que seriam de natureza intelectiva um, 
e de ordem intuitiva o outro. 


São dois processos que se completam, cada qual dotado de certa qualidade ou de valor próprio. A inteligência é o grande instrumento da ciência, a poderosa alavanca mediante a qual o homem se torna senhor da realidade, subordinando-a a seus fins vitais. 
O homem, colocado em face da realidade,
procura dominá-la. 
Domina-a partindo-a, dividindo-a, seccionando-a.

O meio de que o homem se serve para o domínio da natureza é a inteligência, que opera por meio de quantificação ou de espacialização. 

O conhecimento da ciência é quase que conhecimento quantificado, numérico. Bergson, no fundo, aceita a tese de Augusto Comte de que o ideal das ciências é a matemática. 

Uma ciência é tanto mais exata 
quanto mais se avizinha do ideal das matemáticas, 
abrangendo o real em fórmulas e equações. 

O conhecimento do físico, do químico ou do astrônomo atinge perfeição extraordinária porque é suscetível de expressar-se numericamente, em súmulas quantitativas, que partem o movimento e o representam como algo abstrato, cindindo o real numa sucessão de visões fragmentárias, cuja redução infinitesimal se harmoniza com as exigências do "cálculo", essencial ao saber positivo. 

O homem quantifica, em suma, a natureza, para dominá-la, constituindo um sistema convencional de índices quantitativos. 
 O tempo, por exemplo, que dividimos em minutos e horas, anos e séculos, em si mesmo não possui essas divisões. Somos nós que as inventamos, para adaptá-lo à nossa existência. 

O homem modela o mundo 
segundo sua imagem, 
fragmentando o real graças à inteligência. 

Esta, que é uma faculdade de fabricar instrumentos destinados a fazer outros instrumentos (des outils à faire des outils) não pode representar a realidade tal como essencialmente é. Observa Bergson que esse conhecimento fica, de certa maneira, na superfície das coisas. É um conhecimento instrumental, que tem significado e sentido tão-somente porque satisfaz a fins de ordem prática. 
Sentimos, no entanto, a necessidade de nos achegarmos ao ser, sem o intermédio dessas fórmulas numéricas fragmentárias e quantitativas; de entrar em contato direto e imediato com o "real", o não suscetível de ser partido e quantificado.

O real, diz Bergson, é fluido, contínuo e inteiriço. 

Somos nós que o partimos e fragmentamos.
A realidade é "duração pura" 
sem hiatos e intermitências. 

Como será possível ao homem atingir aquilo que é em si uno e concreto, todo e contínuo, autêntico, não deturpado? O instrumento de penetração do homem no mundo da durée pure seria a intuição. 

A intuição é o processo próprio do filósofo 
ou do homem enquanto filosofa.

A intuição é um modo de conhecer que tem algo do instinto e da emoção, ou, como diz Bergson, é "uma espécie de simpatia espiritual". O conhecimento intuitivo opera-se diretamente, como uma sondagem no real para coincidir com aquilo que ele tem de concreto, de único e, por conseguinte, de inefável.
Pense-se na atitude espiritual diante dos problemas estéticos, do senso artístico. 

Compreensão estética não é quantificação numérica, mas é, ao contrário, uma identificação com o próprio objeto contemplado, de maneira que a poesia seria uma forma fundamental, inicial, de compreensão do ser. 
 
Há algo de imaginoso
nos conceitos bergsonianos de intuição,
de "impulso vital" (élan vital), 
duração pura (durée pure), etc. 

Aliás, Bergson deve, em grande parte, o sucesso e a grande repercussão de sua doutrina à sua poderosa capacidade expressional.

Não conheço filósofo moderno que tenha sido capaz
de escrever filosofia com tanta beleza e riqueza 
de imagens como Bergson e Nietzsche, 
os dois pensadores que elevaram a filosofia
a uma expressão estética fundamental, 
reconduzindo-a à beleza reveladora 
do modelo platônico. 
Bergson dá-nos um exemplo ou uma imagem interessante para distinguir-se inteligência de intuição. Analisemos o conhecimento de uma cidade. Podemos conhecer Rio de Janeiro ou Paris por meio de plantas, guias, fotografias.
Obtemos fotografias precisas dos quarteirões, das principais praças e monumentos, lemos guias, decoramos nomes de ruas, estudamos a situação das igrejas, dos museus e dos teatros. 

Eis um conhecimento típico da inteligência, 
pela contemplação de fragmentos, 
pela composição daquilo 
que previamente se dividiu e se separou. 

Este é um conhecimento puramente intelectual. Comparemo-lo, no entanto, com o conquistado por quem vai morar na cidade, se põe em contato com suas ruas, com suas casas, com sua gente, não fica na visão fragmentária do todo, mas se insere naquilo que é insuscetível de divisão e de fragmentação. Quem vive assim na cidade penetra no coração da realidade urbana. É um conhecimento por dentro, não por fora apenas, um intus ire, um ir dentro da coisa, para surpreendê-la no que ela possui no íntimo, ou seja, na sua natureza genuína. 

A intuição, portanto, é uma via 
de acesso direta ao real de maneira que 
o homem se identifique com o real concreto, 
com a "duração pura". 

Outra contribuição decisiva de Bergson consistiu em ter restituído a liberdade à experiência existencial, ultrapassando a posição de  















 Emmanuel Kant, para quem a liberdade seria uma conseqüência do dever, do imperativo categórico, segundo a fórmula: "tu deves, logo podes." Para Bergson, ao contrário, a liberdade, como autodeterminação, é a condição mesma da existência. Pelos motivos expostos, Bergson pode ser considerado o ponto de partida tanto do intuicionismo fenomenológico de Husserl como do existencialismo de Heidegger. 


* Jurista, filósofo, 
membro da Academia Brasileira de Letras,
sócio do escritório 
Reale Advogados Associados

Esta matéria foi colocada no ar originalmente
em 17 de setembro de 2003.
ISSN 1983-392X

Fonte:
Reale -
Advogados-Associados
http://www.migalhas.com.br/mostra_noticia_articuladas.aspx?cod=2695
In: http://www.miguelreale.com.br/artigos/bergson.htm
Sejam feliozes todos os seres 
Vivam em paz todos os seres
Sejam abençoados todos os seres.

ÉLAN VITAL - Henri Bergson


Henri Bergson


HENRI BERGSON
(1859 - 1941)

Filósofo francês, Henri Bergson nasceu em Paris, a 18 de outubro de 1859 e morreu na mesma cidade a 4 de janeiro de 1941. Filho de pais judeus de origem polonesa, apesar de sua excepcional aptidão para as ciências, optou pela filosofia. Ensinou em Angers e, depois, em Clermont, até 1888. Retornando a Paris em 1889, ensinou no Liceu Henri 4º, na École Normale Supérieure e no Collège de France.

Bergson é um marco na filosofia moderna:
substituindo pela visão biológica 
a visão materializante da ciência e da metafísica,
ele representa o fim da era cartesiana.

Exprime, em nível filosófico, um novo paradigma baseado na consciência, adquirido pela cultura de seu tempo, das conexões entre a vida orgânica e a vida social e psíquica. Chamando a sua metafísica de “positiva”, ele dá a essa palavra um significado tão original quanto o que atribui ao “dado imediato”.

Sua originalidade reside, fundamentalmente, no tipo de ruptura que ele introduz no racionalismo do século 17. Enquanto outros oporiam ao racionalismo a subjetividade ou a história, Bergson tem uma visão nova (que também o distancia de Hegel) da dialética e da existência.


Quatro idéias fundamentais

Bergson constrói a sua filosofia sobre quatro idéias fundamentais:

a “intuição”,
a “durée”, 
a “memória” e o
“élan vital”. 

Para ele, a filosofia não só se distingue da ciência, como mantém com as coisas uma relação que é o oposto da relação científica. 

  Uma é o conhecimento do absoluto, 
e outra, do relativo. 
Um absoluto não poderia ser dado senão numa intuição, 
ao passo que todo o resto depende da análise.

Bergson chama de “intuição” 
essa espécie de simpatia intelectual
 pela qual nos transportamos ao interior de um objeto
 para coincidir com aquilo que ele tem de único e,
 por conseguinte, de inexprimível.

Ao contrário, a análise é a operação que liga o objeto a elementos já conhecidos, isto é, comuns a esses objetos e a outros. Portanto, 

analisar consiste em exprimir uma coisa 
em função daquilo que não é ela.

Essa forma de conhecimento interior e absoluto contraria a tendência espontânea de nosso espírito. A inteligência, a ciência, a técnica, a vida social, etc., nos afastam das coisas e de sua interioridade, porque esta representa o ser contraído (tensão), enquanto aquelas atividades não podem organizar-se senão sobre o ser em repouso (distensão).

Para Bergson, a inteligência conceitual desloca a realidade do tempo para o espaço, suprimindo o fluxo que a constitui e fixando-lhe contornos precisos e permanentes, através dos quais ela se torna suscetível de ser “definida” e “utilizada”. Nesse caso, a “durée” é materializada.

A matéria, na opinião de Bergson,
é uma das metades da natureza,
pela qual esta se distende 
e se faz conhecer fora de si mesma.

A oposição entre matéria e espírito,
entre tensão e distensão, 
não é concebida, aqui, em termos dualistas,
mas como impulsos constitutivos da mesma “durée”.

Para ir de um a outro,
a “durée” percorre 
uma série de alterações qualitativas.

Só podemos conhecer a “durée” instituindo-a no momento global e unido que compreende a sua trajetória. O seu fracionamento em instantes separados - em “paradas” ou imobilidades sucessivas - representa a espacialização do que é temporal. 

O tempo é “durée”
 na medida em que ele próprio constitui a substância,
 isto é, na medida em que “substância” é “alteração”.

Depois de estudar a alteração, através da qual a “durée” se diversifica, Bergson procura identificar o processo oposto: o da unificação, o “reencontro do simples como uma convergência de probabilidade”. 

O "élan vital” é a virtualidade da “durée”.
Como uma “gerbe” (um feixe), 
cria direções diferentes
pelo simples fato de crescer.

A “memória” integra 
os diferentes momentos da “durée”, 
absolutamente diferentes entre si, 
mas unificados numa totalidade movente.
Henri Bergson 
recebeu o Prêmio Nobel de literatura em 1927.


2.

Henri Bergson nasceu de família judia, filho de mãe inglesa e pai polaco. Viveu com os seus pais alguns anos em Londres, mas aos nove anos regressou a Paris. Ali fez os seus estudos no Liceu Fontanes onde ganha em primeiro lugar o prêmio de matemática no Concours Général resolvendo um problema de Pascal. 

Licenciando-se em Letras, em 1881 tornou-se professor, dando aulas em várias localidades da França, destacam-se desse momento as aulas no liceu Blaise Pascal de Clermont-Ferrand.


Em 1889 obteve o doutoramento pela Universidade de Paris com a tese Ensaios sobre os dados imediatos da consciência, e com uma tese secundária sobre Aristóteles. Bergson casa-se em 1892 com Louise Neuberger, uma prima do escritor francês Marcel Proust. Publica seu segundo livro em 1896 sob o título Matéria e Memória. Passa a lecionar na Escola Normal Superior de Paris dois anos depois. Em 1900, aos 40 anos, inicia seus cursos a frente da cadeira de História da Filosofia Antiga no Collège de France. 

No ano 1907,  publica sua obra principal: A Evolução Criadora que une crítica da tradição filosófica especulativa, com intuição da duração e com as teorias evolucionistas de Herbert Spencer. Como diplomata, participa das discussões sobre a Primeira Guerra Mundial e exerce influência sobre a decisão dos EUA em intervir no conflito.

Em 1918 Bergson torna-se membro da Academia Francesa, dois anos depois, publica Duração e Simultaneidade, obra que discute a comunicação de Einstein de 1905 sobre a teoria da relatividade restrita.


A partir de 1925,  passa a sofrer de um reumatismo que o deixará semi-paralisado, a ponto de impedi-lo de ir a Estocolmo para receber o Nobel de Literatura de 1928. Escreve com grande dificuldade seu último livro publicado em 1932: As Duas Fontes da Moral e da Religião. Nessa época, aproxima-se do cristianismo, mas não se converte por preferir ficar ao lado daqueles que serão perseguidos pelo regime Nazista de Hitler. Faleceu em 1941, em 3 de janeiro, aos 81 anos, em Paris.

Elan Vital - A organização e as suas origens
Elan Vital é o nome que designa diversas entidades que promovem e apoiar o trabalho de Prem Rawat, o actual líder de um movimento que promove a paz interior. Elan Vital era originalmente conhecida como a Luz Divina Missão, fundada por Hans Ram Singh Rawat. O nome hindu da Luz Divina Missão foi Divya Sandesh Parishad;. Elan Vital não se considera uma religião, de fato, os seguidores do élan vital insistir em que se pode praticar as verdades expostas por Prem Rawat e ainda permanecer fiel à sua própria religião. Embora aderentes aos dogmas da Elan Vital são encorajados a praticar os seus princípios, em privado, sem raça ou grupo religioso é excluído da sua mensagem de paz.

Elan Vital divorciou-se da sua origem hindu e sikh e removeu seus rótulos Índico, a fim de torná-lo mais aceitável para um público mais amplo, ou seja, aquelas de culturas ocidentais. A organização foi originalmente constituída como A Luz Divina Missão, em 1971. Posteriormente, foi aceito como um sem fins lucrativos, organização de caridade em 1974 e reconhecida como uma igreja pelo Internal Revenue Service, em 1983.

Seguidores de Elan Vital que conseguisse treinar as técnicas para a paz interior pode receber um cartão inteligente que lhes permite o acesso aos eventos patrocinados por Prem Rawat. Em seus estágios iniciais, os seguidores foram treinados em uma base face a face para aprender as técnicas de ganhar a paz interior. Os devotos modernas vão receber mais frequentemente estes ensinamentos através de um vídeo de treinamento sofisticado, que prevê um alcance mais amplo.

Élan Vital 
- Energia viva - alor - impulso vital 
- Energia Vital.

A verdadeira felicidade só pode ser encontrada através de auto-conhecimento. - a  autodescoberta conduz à paz interioriorizada pela Luz-Energia vital

 Se quisermos ter confiança por algo podemos tê-la na paz,desejá-la em  nossa vida. E esta paz que estamos procurando está dentro. Éstá no coração,essa energia esperando para ser sentida e realizada.

Não é o mundo que precisa paz; 
são as pessoas. 

Quando as pessoas no mundo 
estão em paz interior,
o mundo estará em paz.

A paz interior, como ensinado por Prem Rawat é adquirida pela prática de quatro técnicas de conhecimento.
A primeira técnica é "light", que envolve a pressão cuidado com os olhos a abertura do "terceiro olho".

A segunda técnica é o "som" que envolve colocando as mãos nos ouvidos e nos templos para ouvir a "música celestial".

A terceira técnica é "palavra" ou "nome" que é uma ferramenta a meditação para regular a respiração.
A quarta técnica é o "néctar" que envolve um posicionamento cuidadoso da língua para saborear o "néctar da vida."

Cada técnica é praticada por 15 minutos durante a 2 e ½ hora de sessão. Estes métodos, como ensinado por Prem Rawat, ajudar a ganhar o controle pessoal sobre o que está "fora de controle" e caótico na vida de alguém, assim, alcançar a paz interior.
 
Vital lan - Como ele se compara com os ensinamentos da Bíblia?

Élan Vital ensina a seus seguidores
que a paz interior pode ser obtido 
pela iluminação que emana do auto-conhecimento.  
Élan Vital é supostamente aberta a qualquer pessoa. 
Segundo Élan Vital, 
se uma cuidadosa e regularmente pratica 
as quatro técnicas de conhecimento, 
essa pessoa pode obter a verdadeira felicidade. 

Estes seguidores acreditam que através da metodologia e da formação, a paz interior pode ser cultivada. Outros, no entanto, acreditam que para se conquistar a verdadeira paz, deve haver uma intervenção divina.

Elan Vital é originalmente riqueza
em hindu e sikh ideologia. 

O hinduísmo é dito ter nenhum dogma específico, mas é apenas um modo de vida. doutrina Sikh simplesmente encoraja os seus seguidores a meditar sobre o "santo nome", trabalhar com afinco e honestamente, e compartilhar os frutos do seu trabalho. Embora Elan Vital procurou separar o seu estado actual dos começos, ele ainda mantém a crença simplista de que a paz interior pode ser encontrado e de seu próprio ser.

Estas crenças estão em contradição direta com as crenças bíblicas do Cristianismo. O cristianismo ensina que a paz deve ser concedida a nós, é um dom de Deus. "Deixo com vocês, a minha paz vos dou. Eu não vo-la dou como o mundo a dá "( João 14:27 ). Buscando dentro de si mesmo nunca pode trazer a paz, porque dentro de cada um de nós é um caos e turbulência, além de Deus, nosso coração enganoso manter uma escuridão e é incognoscível.  

"O coração é enganoso acima de todas as coisas,
e desesperadamente corrupto, 
quem o poderá conhecer?"  
( Jeremias 17:9 , NVI).

Só recebendo de pé direito com Deus uma pessoa pode encontrar a paz. Pela fé na obra consumada de Cristo nós podemos ter uma comunhão íntima com Deus. Esta união é a fonte da verdadeira paz, porque os pecados que nos separam de Deus são lavados. "Portanto, uma vez que fomos justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo. . . "( Romanos 5:1 ).
Saiba mais!
Élan Vital



Esta impressão de intenção e finalidade é posteriormente reforçada quando compreendemos a extraordinária habilidade de certos sistemas vivos de se recuperar completamente, mesmo se o embrião se torna mutilado durante seu estágio de formação. Um processo chamado "regulação"  substitui as células que faltam por outras novas, ou permite células extraviadas a recuperar seus lugares "corretos."  

Ainda mais espantoso é  o fato de que certos organismos vivos, já totalmente desenvolvidos, podem se reconstituir quando mutilados. Uma cena surpreendente é quando uma minhoca se divide em duas partes e continua vivendo como dois organismos separados.

As salamandras têm a propriedade de regenerar um membro totalmente novo para substituir um que foi separado.  O caso mais extraordinário pode ser o de um pequeno animal de água doce chamado hidra, dotado de seis ou dez tentáculos; ela pode se dividir espontaneamente em duas ou três partes separadas, cada uma das quais gera um animal completo. Melhor ainda, se você a corta em pequenos pedaços, ela se recompõe totalmente.


Como podemos explicar que os seres vivos parecem estar   "investidos de uma intenção", que eles possuem uma qualidade teleológica, parafraseando Aristóteles, ou um componente "teleonômico", nas palavras de Monod?

Para falar de "causa final" ou "grande projeto" é anátema na visão de muitos cientistas – não sem alguma justificativa, considerando que a ciência moderna nasceu e floresceu sistematicamente rejeitando a explicação de fenômenos naturais em tais termos. Considerar, como disse Bernardin de Saint–Pierre ( 1737-1814) que a Providência 

"dividiu a abóbora em fatias 
porque foi feita para ser partilhada
por toda a família"  

pouco engrandece o nosso conhecimento em matéria de abóbora! Contudo, até o ponto em que os seres vivos são considerados, a evidência é persuasiva e não pode ser facilmente descartada. Monod colocou assim: "Entretanto a objetividade força-nos a admitir o caráter teleonômico dos seres vivos, aceitar que, em suas estruturas e ações, eles perseguem e realizam um propósito. 

Nisto jáz, pelo menos aparentemente, uma contradição profundamente epistemológica. O problema central da biologia é esta própria contradição, ou o declarado objetivo é resolvê-lo se é somente aparente, ou prová-lo fundamentalmente insolúvel se verdadeiramente é assim."


Em uma tentativa de resolver esta "contradição profundamente epistemológica",  alguns têm tomado o ponto de vista de que os seres vivos constituem uma classe separada, que eles estão sujeitos a leis diferentemente daquelas que governam a matéria inerte. Estas leis possuem um ingrediente extra que está faltando nas leis convencionais. 

Nas chamadas teorias vitalistas, este ingrediente extra admite atributos que o filósofo francês Henri Bergson ( 1859-1941) se referiu a eles como o "élan vital", ou energia viva. Ele confere à matéria viva propriedades especiais que a habilita a organizar-se e evoluir de uma maneira harmônica e criativa.

Um "fluxo de vida"  
luta com a matéria inanimada  
e a força a organizar-se. 

 Hoje em dia, tais idéias vitalistas já não estão na moda. Elas caíram em descrédito, por falta de prova experimental (continua).



(Extracted from Chaos and Harmony,
Trinh Xuan Thuan, University of Virginia,
Oxford university press, 2001).



Pensamento do dia: 

Qualquer fórmula que expressa 
uma lei da natureza 
é um hino de louvor a Deus
(Maria Mitchel, 1818-1889, astrônoma americana).

Fontes:
Mirador-SuzanaKillp-Artigonal


Disponível em:  

Enciclopédia Mirador Internacional. Disponível em:  

 http://www.allaboutspirituality.org/elan-vital.htm
http://www.artigonal.com/ciencias-artigos/elan-vital-3978810.html


Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.

Sejam abençoados todos os seres.

PROCEDÊNCIA E PARTICULARIDADES.



HENRI BERGSON
por
J. M. Bochenski


       A. PROCEDÊNCIA E PARTICULARIDADES.
HENRI BERGSON (1859-1941) é o representante mais conceituado e original da nova "filosofia da vida", a qual dele recebeu a forma mais acabada. Contudo, embora mais tarde se tenha posto à testa do movimento, não se pode dizer que tenha sido ele o seu fundador. Na própria França, a Action de BLONDEL precedeu o Essai sur les données immédiates de Ia conscience de BERGSON. e também LE ROY, que mais tarde seria discípulo de BERGSON, já anteriormente se havia manifestado contra o mecanicismo. 

Todo este movimento está em relação com a tendência espiritualista, voluntarista e personalista da filosofia francesa, que, iniciada por MAINE DE BIRAN, foi em seguida representada por Félix RAVAISSON-MOLLIEN (1813-1900), JULES LACHELIER (1832-1918) e ÉMILE BOUTROUX (1845-1921), de quem BERGSON foi discípulo. 

Contudo, BERGSON não se deixou ifluenciar somente por estes filósofos, mas também pela "critica da ciência". Além disso, tomou igualmente muitas idéias das teorias evolucionistas e utilitaristas inglesas; ele próprio confessa que, de início, só a filosofia de HERBERT SPENCER lhe parecia ajustar-se à realidade, e sua própria filosofia proveio da tentativa de aprofundar os fundamentos do sistema spenceriano. 


Contudo, semelhante tarefa levou-o finalmente a repudiar completamente o spencerismo, que não cessou de combater daí em diante. A atividade especulativa de BERGSON exerceu-se, sobretudo, em quatro obras que mostram claramente sua evolução espiritual. 

O Essai sur les données immédiates de Ia conscience (1889) contém a sua teoria do conhecimento; Matière et Mémoire (1896) sua psicologia, L’Évolution créatrice (1907) sua metafísica fundada na biologia especulativa, Les deux sources de la Morale et de la Religion (1932) sua ética e filosofia da religião. Todas estas obras tiveram êxito extraordinário, que se explica não só porque BERGSON expunha uma filosofia realmente nova e que correspondia às necessidades mais prementes da época, mas também porque a exprimia numa linguagem de rara beleza. Por esse motivo lhe foi atribuído, em 1927, o prêmio Nobel de literatura. 

A uma prodigiosa clareza, a uma artística matização das expressões e a uma impressionante potência de imaginação, alia ele extraordinária gravidade filosófica e uma acuidade dialética sem par. Além disso, suas obras apóiam-se em conhecimentos sólidos, adquiridos à custa de amplas e árduas pesquisas. 

Por tudo isto, BERGSON foi capaz de superar,
a um tempo, o positivismo e o idealismo do século XIX.
É um dos pioneiros do espírito novo de nosso tempo. 


B. DURAÇÃOE INTUIÇÃO. Segundo a concepção do senso comum, admitida igualmente pela ciência, as propriedades do mundo são a extensão, a multiplicidade numérica e o determinismo causal. 

O mundo compõe-se de corpos sólidos extensos, 
cujas partes se encontram espacialmente justapostas; 
é caracterizado por um espaço totalmente homogêneo  
e por separações precisas, e todos os acontecimentos 
são de antemão determinados por leis invariáveis. 

A ciência da natureza nunca considera o movimento, mas só as posições sucessivas dos corpos; nunca as forças, mas só os seus efeitos; a imagem do mundo traçada pela ciência natural carece de dinamismo e de vida; o tempo, tal como o encara a ciência, não é, em última instância, senão espaço; e quando a ciência natural pretende medir o tempo, na realidade não mede senão o espaço. 


Todavia, podemos descobrir em nós mesmos, embora com esforço, uma realidade inteiramente diferente. Esta realidade possui uma intensidade puramente qualitativa, compõe-se de elementos absolutamente heterogêneos, que, entretanto, se interpenetram, de sorte que não é possível discriminá-los claramente uns dos outros; e, por último, esta realidade interior é livre. Não é espacial nem calculável; de fato, não somente ela dura, senão que é duração pura, e, como tal, completamente diferente do espaço e do tempo das ciências da natureza.

É um agir único e indivisível, 
um alor (élan)  
e um devir que não pode ser medido. 
Esta realidade encontra-se, em principio, 
em constante fluir, nunca é, 
mas perpetuamente devém. 


A faculdade humana que corresponde à matéria espacial é a inteligência, e esta caracteriza-se por sua exclusiva orientação para a ação. É a ação que comanda, sem mais, a forma da inteligência. Como para a ação necessitamos de coisas exatamente definidas, o objeto principal da inteligência é o fixo corpóreo, inorganizado, fragmentário; a inteligência não concebe claramente senão o imóvel. Seu domínio é a matéria. Ela a capta para transformar os corpos em instrumentos; é o órgão do homo faber e subordinado, essencialmente, à construção de instrumentos. 

Dentro do domínio da matéria 
e graças à sua afinidade essencial com a matéria, 
a inteligência não só capta os fenômenos, 
como também a essência das coisas.

BERGSON abandona o fenomenismo de KANT e dos positivistas, e confere à inteligência, no domínio do corpóreo, a capacidade de penetrar na essência das coisas. Segundo ele, a inteligência é também analítica, ou seja, capaz de decompor segundo qualquer lei ou sistema e de recompor de novo. Suas características são a clareza e a capacidade de distinguir. 


Mas, ao mesmo tempo, a inteligência caracteriza-se igualmente pelo fato de, por natureza, lhe ser impossível compreender a duração real, a vida. Constituída de acordo com a matéria, ela transfere as formas materiais, extensivas, calculáveis, claras e determinadas, ao mundo da duração; interrompe a corrente vital única e introduz nela a discontinuidade, o espaço e a necessidade. Não pode sequer comprender o simples movimento local, como o provam os paradoxos de ZENÃO.


Só podemos conhecer a duração graças à intuição; mas com ela conhecemo-la diretamente e como algo íntimo. A intuição distingue-se por características que se contrapõem às características da inteligência. Órgão do homo sapiens, a intuição não está ao serviço da prática; seu objeto é o fluente, o orgânico, o que está em marcha; só ela pode captar a duração. 

Enquanto a inteligência analisa, 
decompõe, para preparar a ação, 
a intuição é uma simples visão, 
que não decompõe nem compõe, 
mas vive a realidade da duração. 

Não se adquire facilmente a intuição; tão habituados estamos ao uso da inteligência que se torna necessária uma viragem íntima violenta, contrária a nossas inclinações naturais, para podermos exercitar a intuição, e só em momentos favoráveis e fugazes somos capazes de o fazer.


Em resumo, existem dois domínios: de um lado, o domínio da matéria espacial e rígida, subordinado à inteligência prática; de outro lado, o domínio da vida e da consciência que dura, ao qual corresponde a intuição. Sendo a atitude da inteligência exclusivamente prática, a filosofia não pode utilizar senão a intuição. Os conhecimentos, obtidos por este meio, não podem ser expressos em idéias claras e precisas, nem tampouco são possíveis as demonstrações. A só coisa, que o filósofo pode fazer, é ajudar os outros a experimentarem uma intuição semelhante à dele. Assim se explica a riqueza de imagens sugestivas que as obras de BERGSON oferecem. 


      C. TEORIA DO CONHECIMENTO E PSICOLOGIA. 
BERGSON aplicou seu método intuitivo em primeiro lugar aos problemas da teoria do conhecimento. Tais problemas, diz ele, receberam até ao presente três soluções clássicas: o dualismo corrente, o kantismo e o idealismo. Contudo, estas três soluções estribam totalmente na falsa afirmação de que a percepção e a memória são puramente especulativas, independentes da ação, quando na realidade são completamente práticas, subordinadas à ação.

Por sua vez, 
o corpo não é mais
do que um centro de ação. 

Destes princípios se infere que a percepção não abarca senão uma parte da realidade; ela consiste, de fato, numa seleção de imagens, das que são necessárias para cumprir a ação. O idealismo engana-se; os objetos, de que o mundo se compõe, são "imagens verdadeiras" e não únicamente elementos da consciência. Tanto o realismo habitual como o de KANT cometem erro ainda maior, ao situarem entre a consciência e a realidade exterior o espaço homogêneo, que consideram como indiferente.

De fato, o espaço é só uma forma subjetiva, 
em correspondência
unicamente com a ação humana. 


BERGSON consolida sua teoria do conhecimento mediante uma psicologia definida. Em primeiro lugar, repudia o materialismo, que tira toda sua força do fato de a consciência depender do corpo – como se, do fato de um vestido oscilar e cair com o gancho a que está suspenso, tivéssemos de concluir que o vestido e o gancho são idênticos. Entre os fenômenos psicológicos e os fisiológicos não existe sequer um paralelismo, o qual, aliás, nada provaria. A prova disto é a memória pura. 

Com efeito, importa distinguir dois tipos de memória: uma memória mecânica, corporal, que consiste unicamente na repetição de uma função tornada automática, e a memória pura, que reside nas imagens da lembrança. Neste caso, não se pode falar de uma localização no cérebro, argumento principal aduzido pelos materialistas. Se houvesse uma tal localização exata, deveriam perder-se porções inteiras da memória por causa de certas lesões cerebrais; na realidade muitas vezes só se verifica um enfraquecimento geral da memória. Mais acertadamente talvez se pudesse comparar o cérebro a uma espécie de gabinete destinado a transmitir sinais. 

Sua função não é a vida propriamente espiritual. Por seu turno, a memória não é uma percepção atenuada, mas um fenômeno essencialmente diferente.

A psicologia associacionista estriba no duplo erro de conceber a duração como um espaço e o eu como um conjunto de coisas decalcadas pela matéria. Estes mesmos erros conduzem ao determinismo psicológico, que concebe os motivos como coisas simultâneas e o tempo como um caminho no espaço, donde se infere, naturalmente, a negação da liberdade. 

Na realidade, 
nossas ações provêm de nossa personalidade toda; 
a decisão cria algo de novo, o ato sai do eu, 
unicamente do eu e, portanto, é inteiramente livre.

O fato de a liberdade ser negada
tão freqüentemente, apesar de sua evidência imediata,
deve-se a que a inteligência forma um eu superficial, 
análogo ao corpo, e encobre dessa maneira o eu real 
mais profundo, que não é senão criação e duração. 
 

     D. VIDA E EVOLUÇÃO. 
As duas doutrinas clássicas, pelas quais se pretendeu explicar a vida, a mecanicista e a teleológica, erram por igual, visto ambas negarem radicalmente a duração. Segundo a primeira, o organismo é uma máquina de antemão determinada por leis calculáveis, e, de acordo com a segunda, existe um plano acabado do mundo. Ambas, sob certo aspecto, ampliam demasiado a noção de inteligência; a inteligência é para operar e não para conhecer a vida. A filosofia precisa superar estas duas doutrinas, especialmente o mecanicismo que nega simplesmente fatos evidentes.


      Do mesmo modo que no problema psicofísico, também no problema da vida é possível observar um fenômeno que mostra a falsidade do mecanicismo. Este fenômeno consiste na produção de órgãos estruturalmente análogos em linhas evolutivas muito diferentes; assim, por exemplo, o olho nos moluscos e nos vertebrados, cujas linhas de evolução devem ter-se separado muito antes do momento em que adquiriram a vista. Servindo-se deste fato e de muitas outras observações, BERGSON repele o mecanicismo darwinista e neodarwinista e, em geral, a concepção mecanicista do órgão vivo. 

O órgão vivo deve ser considerado como a expressão complexa de uma função simples; pode ser comparado a um quadro composto de milhares de traços, mas que expressa a inspiração simples do artista. Sem dúvida, o organismo contém um mecanismo, parece até ser um mecanismo. Mas assim como num arco dividido em minúsculos segmentos, estes segmentos coincidem aparentemente com a tangente, assim também a vida examinada em suas minúcias com os métodos das ciências da natureza parece ser um mecanismo, mas não o é.


      A vida 
como um todo 
não é nenhuma abstração. 

Em determinado momento surgiu em certos lugares do espaço uma corrente vital que, através dos organismos desenvolvidos, vai passando de um germe a outro. A corrente vital procura vencer os obstáculos que a matéria lhe opõe; a materialidade de um organismo representa a totalidade dos obstáculos contornados pela vida. 

A vida não procede logicamente,
erra de quando em quando, 
acumula-se em becos sem saída 
ou até volta para trás. 

Contudo, o ímpeto vital geral persiste. A fim de poder desdobrar-se, o alor vital (élan vital) divide-se em várias direções. Assim, surgiu, em primeiro lugar, a grande divisão do reino vegetal e do reino animal: as plantas acumulam diretamente a energia, para que os animais possam hauri-la nelas e disponham da mesma como de matéria explosiva para a ação livre. 

As plantas estão ligadas à terra e, nelas, 
a consciência ainda se encontra entorpecida; 
só desperta no mundo animal. 
 

O élan vital subdivide-se 
ainda no mundo animal em duas direções diferentes,
como se experimentasse dois métodos:
numa direção culmina nos insetos sociais,
na outra encontra seu acabamento no homem.

Na primeira direção, a vida busca mobilidade e flexibilidade mediante o instinto, ou seja, mediante a capacidade de utilizar ou até mesmo de criar instrumentos orgânicos; o instinto conhece seus objetos por simpatia, desde dentro, e age de modo infalível mas sempre uniforme. Ao invés, nos vertebrados desenvolve-se a inteligência, isto é, a faculdade de fabricar e utilizar instrumentos anorgânicos. Por sua essência profunda, a inteligência não se orienta para as coisas, mas para as relações, para as formas; conhece seu objeto só por fora. Contudo, suas formas vazias podem encher-se de inumeráveis objetivos e indefinidamente.

A Inteligência perfeita 
ultrapassa suas fronteiras primitivas 
e pode até encontrar aplicação fora do campo prático,
para o qual foi propriamente criada. 


Finalmente, aparece no homem, embora só em forma de fugazes arranques, a intuição, na qual o instinto se tornou desinteressado e capaz de refletir sobre si mesmo. Além disso, o homem é livre. Todo este curso evolutivo conduz, portanto, a libertação da consciência do homem, e este aparece como o fim último da organização vital sobre o nosso planeta. 


E. METAFÍSICA. 
Se o filósofo consente em mergulhar no oceano de vida que nos cerca, pode tentar conceber a gênese dos corpos e da inteligência. Esta intuição mostra que não só a vida e a consciência, mas a realidade inteira é um devir. Não existem coisas, mas somenteações, e o ser é essencialmente devir. "O devir encerra mais do que o ser". Só a nossa inteligência e , por conseguinte, a ciência nos representam os corpos como rígidos. 

Na realidade, o próprio mundo material 
é movimento, alor, embora certamente 
em descenso e dispersão.

Com efeito existem no mundo duas espécies de movimento, um movimento ascendente – o da vida – e outro movimento descendente – o da matéria. A lei da matéria é a lei da degradação da energia; a vida luta contra esta lei, sem contudo poder aboli-la; quando muito, consegue retardar-lhe os efeitos. Poderíamos compreender este processo, comparando-o ao vapor que sai em jatos pelas fendas de um vaso. Este vapor em contato com o ar livre condensa-se em pequenas gotas que caem. Mas uma pequena parte do vapor não se condensa imediatamente e esforça-se por elevar as gotas que caem. 

De modo idêntico, do imenso reservatório da vida saem incessantemente uns como que jatos, cada um dos quais caindo forma um mundo; as gotas que caem são a matéria. Ou, para empregar outra imagem, o mundo com o movimento vital é comparável a um braço erguido que torna a cair, em conseqüência do relaxamento dos músculos: a matéria é como que um gesto criador que se desfaz. Mas estas imagens são insuficientes, porque a vida é do domínio psicológico e é inespacial.


Processo idêntico se passa na consciência.

A Intuição tem a mesma direção que a vida, 
a inteligência tem a direção contrária.

Por isso a inteligência está essencialmente
coordenada à matéria. 

A intuição, pelo contrário,
mostra-nos a verdadeira realidade, 
na qual aparece a vida como onda gigantesca 
que se espraia e logo em seguida 
é contida em quase toda sua amplitude. 

Só num ponto foi vencido o obstáculo e o impulso encontra livre saída. Esta liberdade aparece na forma humana. Pelo que, não sem razão, a filosofia afirmou a liberdade do espírito em geral, sua independência relativamente a matéria e sua provável sobrevivência após a morte. 


Entretanto, a filosofia extraviou-se, por haver utilizado a inteligência e seus conceitos. Valendo-se de minuciosas análises, BERGSON mostra como surgiu a idéia da desordem (a saber, da contingência das duas ordens possíveis, a vital e a geométrica) e como se formou a idéia do nada, que é propriamente uma pseudo-idéia.
BERGSON investe contra os mais importantes 
sistemas filosóficos do passado. 

A metafísica de PLATÃO e de ARISTÓTELES, seguindo a propensão natural da inteligência, conseqüência dos conceitos que não fazem mais do que imitar a linguagem, subjugou a duração. Outro tanto acontece fundamentalmente, embora com diferenças de pormenor, nos sistemas modernos, como os de DESCARTES, SPINOZA, LEIBNIZ, no criticismo de KANT e principalmente em SPENCER. Neste último é onde se manifesta com particular evidência o caráter cinematográfico de nosso pensamento: pretende captar e representar a evolução por uma sucessão de estados do ser que se desenvolve, e desconhece assim totalmente a verdadeira duração. 


F. ÉTICA.  
Segundo BERGSON, há duas espécies de moral, a moral fechada e a moral aberta. A moral fechada deriva dos fenômenos mais gerais da vida; consiste numa pressão exercida pela sociedade, e as ações que lhe correspondem são levadas a cabo de modo automático, instintivamente. 

Só em casos excepcionais se trava luta entre o eu individual e o social. A moral fechada é impessoal e triplamente fechada: visa a conservação dos costumes sociais, faz coincidir quase inteiramente o individual com o social, de sorte que a alma se move constantemente dentro do mesmo círculo, e, por último, é sempre função de um grupo limitado e nunca pode ser válida para a humanidade inteira, porque a coesão social, da qual é função, repousa em grande parte na necessidade de autodefesa. 


A par desta moral fechada, 
que obriga absolutamente, 
existe a moral aberta. 

 Esta aparece encarnada em personalidades. eminentes, em santos e heróis, e não é moral social, mas humana e pessoal. Não consiste numa pressão, mas num apelo; não é fixa, mas essencialmente progressiva e criadora. É aberta no sentido que abarca a vida inteira no amor, proporciona até o sentimento da liberdade e coincide com o próprio princípio da vida. Procede de uma emoção profunda que, do mesmo modo que o sentimento provocado pela música, carece de objeto. 


Todavia, na realidade nem a moral fechada nem a moral aberta se apresentam em forma pura; toda aspiração procura consolidar-se numa obrigação e esta, por sua vez, procura captar a aspiração. Estas duas forças, das quais uma é infra-intelectual e outra supra-intelectual, operam no campo da inteligência, e por isso o moral é uma vida racional. Como quer que seja, a moral fechada e a aberta constituem duas manifestações complementares do mesmo valor vital. 
 

G. FILOSOFIA DA RELIGIÃO. 
A mesma divisão que se fez na moral se aplica igualmente a religião: há uma religião estática e uma religião dinâmica. A religião estática consiste numa reação defensiva da natureza contra os efeitos da atividade da inteligência, que ameaçam oprimir o indivíduo ou dissolver a sociedade. A religião estática prende o homem à vida e o indivíduo à sociedade mediante fábulas que se assemelham a canções de berço. 
A religião é obra 
da "função fabuladora" da inteligência. 

A inteligência, em sentido estrito, ameaça desfazer a coesão social, e a natureza não pode opor-lhe o instinto, cujo lugar foi precisamente substituído no homem pela inteligência. Mas a natureza ajuda-se mediante a produção da função fabuladora.

Se o homem sabe, pela inteligência, que tem de morrer, coisa que o animal não sabe, e se a inteligência lhe ensina que entre a tentativa e o êxito desejado existe o espaço desanimador do insondável, a natureza volta a ajudá-lo a suportar este conhecimento amargo, fabricando, graças a sua função fabuladora, deuses.
O papel da função fabuladora 
nas sociedades humanas 
corresponde ao do instinto
nas sociedades animais. 


A religião dinâmica, o misticismo, é algo inteiramente diferente. Resulta de um retorno na direção donde procede o élan vital, e nasce da pressentida captação do inacessível a que a vida aspira. Este misticismo é próprio somente de homens extraordinários. Não se manifestou ainda entre os velhos gregos, como nem em forma perfeita na Índia, onde não deixou de ser puramente especulativo. Contudo surgiu entre os grandes místicos cristãos, que possuíam uma saúde espiritual que se pode qualificar de perfeita.

A religião cristã aparece como a cristalização
deste misticismo, mas, por outro lado, 
constitui o seu fundamento, porque
os místicos são todos imitadores originais,
embora imperfeitos, 
daquele que nos deixou o Sermão da Montanha.

A experiência das místicos permite-nos defender não só a probabilidade das concepções relativas à origem do élan vital, como também a afirmação da existência de Deus, que não se pode provar com argumentos lógicos. 

Os místicos ensinam também que deus é o amor, 
e nada impede que os filósofos desenvolvam a idéia,
sugerida por eles, de o mundo não ser mais 
do que um aspecto palpável deste amor 
e da necessidade divina de amor. 

A base da experiência dos místicos, corroborada pelas conclusões da psicologia, pode igualmente afirmar-se, com uma probabilidade que toca nas raias da, certeza, a sobrevivência após a morte.

Tradução de Antônio Pinto de Carvalho.
in A Filosofia Contemporânea Ocidental.
Herder, São Paulo, 1968
Fonte:
CONSCIENCIA:.ORG

http://www.consciencia.org/bergsonbochenski.shtml


Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.

Sejam abençoados todos os seres.