quinta-feira, 5 de junho de 2014

A ENERGIA ESPIRITUAL - Pierre Weil - A Humanidade Mutante



Pierre Weil - A Humanidade Mutante 

Palestra de Pierre Weil (1924-2008) - A Humanidade Mutante. 

Pierre Weil

Pierre Weil (Estrasburgo, 16 de abril de 1924Brasília, 10 de outubro de 2008) 1 foi um conhecido educador e psicólogo francês residente no Brasil. É autor de cerca de 40 livros.

Biografia

Sensibiliza-se a respeito do preço da paz e do peso das fronteiras desde a infância: devido à sua condição de alsaciano, vivenciou conflitos religiosos na família, e políticos por conta das guerras na Europa, principalmente entre Alemanha e França. Aos quatorze anos escreveu em seu diário: “Minha pátria é principalmente a Terra”, e propôs uma unificação da Europa, tanto econômica quanto fronteiriça, o que sucinta sua opinião antinacionalista e unificadora. Aos dezessete, já em plena 2ª Guerra Mudial, Pierre se junta aos ‘maquis’, força revolucionária francesa que objetivava expulsar o nazismo, mas como enfermeiro partisan, e não guerrilheiro, mostrando assim sua afinidade para com a paz.

Já famoso, Weil vivência uma crise existencial na qual só encontra resolução numa síntese entre a cultura ocidenta e oriental, ou seja, Psicanálise e Yoga. Em 1982 faz um retiro de três anos no Tibet para trabalhar seu lado pessoal com as ferramentas orientais de autoconhecimento, após esse retiro Weil se julga capaz de continuar a se dedicar à educação para a paz.

Doutor em Psicologia pela Universidade de Paris. Foi aluno de grandes psicólogos e de grandes educadores, tais como Henri Wallon, André Rey, Jean Piaget,m Leon Walther, Henri Piéron e André Rey. Sua formação como psicoterapeuta se deu com Igor Caruso, Jacob Moreno, Zerka Moreno e Anne Ancelin Schützenberger.

Foi um dos responsáveis pela regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil. Assumiu na Universidade Federal de Belo Horizonte a cátedra em Psicologia Social, posteriormente ocupando a primeira cátedra em Psicologia Transpessoal, disciplina na qual é um dos pioneiros.
Em 1980 foi lançado pela Editora Vozes o livro escrito por Pierre Weil e Roland Tompakow chamado O Corpo Fala.2 3

Em 1986, Weil redige a “Mersalha da Paz” um hino que tenta contrariar o modelo tradicional dos hinos nacionais que exibem um nacionalismo exacerbado e uma cultura de violência e de guerras. Este hino remete ao desejo de Weil pela unificação e pacificação mundial, e foi também chamado de “Hino do Planeta”.

Vida acadêmica

Durante a juventude estudou no Liceu do Strasbourg e Mulhouse, posteriormente na Escola Prática de Psicologia e Pedagogia da Universidade de Lyon, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Instituto Jean Jacques Rousseau) da Universidade de Genebra e na Universidade de Paris, na qual fez doutorado em Psicologia.

Período no Brasil

Chega ao Brasil em 1948 a convite do professor Léon Walther, para o treinamento das equipes no Senac, no Rio de Janeiro. De 1949-1958 foi Chefe da Seção de Orientação e Seleção Profissional do Departamento Nacional do Senac e, a convite de Helena Antipoff foi Chefe do Consultório Psico-Pedagógico do Instituto Pestalozzi. Nesse período estudou sobre psicodiagnósticos, profissões e pesquisas sobre a biotipologia.

Em 1958 muda para Belo Horizonte, onde foi chefe do Departamento de Orientação e Formação do Banco Real e professor da UFMG, trabalhando em Psicologia Social, Psicologia Industrial e Psicologia Transpessoal.
Muda-se para Brasília em 1987, tornando-se Presidente da Fundação Cidade da Paz e Reitor da Universidade Holística para a Paz de Brasília - UNIPAZ.

Unipaz - Universidade Holística Internacional

A partir de 1987, até falecer em 2008 exerceu a função de reitor da Unipaz - Universidade Holística Internacional, sediada em Brasília. A UNIPAZ, criada por ele a pedido do então Governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira, é a união da Universidade Holística Internacional com a Fundação Cidade da Paz. Seu propósito é difundir a cultura da Paz.

A forma de ensino da UNIPAZ é um exemplo da transdisciplinariedade proposta por diversas recomendações da UNESCO. A estrutura de ensino da UNIPAZ é baseada em três níveis, os de: sensibilização, de formação e de pós-formação, de pesquisas e de ação reparadora daquilo que o ser humano desorganizou ou destruiu em si mesmo, na sociedade ou na natureza. Que pode ser exposta da seguinte maneira:
  1. A Paz consigo próprio (Ecologia e Consciência individuais), sobre os planos do corpo, das emoções e do espírito.
  2. A Paz com os outros (Ecologia e Consciência Sociais), sobre os planos da economia, da sociedade e política, e da cultura.
  3. A Paz com a natureza (Ecologia e Consciência do Universo), sobre os planos da matéria, da vida e da informação
Pierre Weil estudou diversas doutrinas esotéricas, dentre outras a cultura indiana, chinesa, tibetana, o Antigo Egito e diversas outras tradições esotéricas, sendo um defensor da paz e da harmonia entre os homens e com o meio-ambiente.

Pelos seus escritos e ações em defesa da Paz e do Meio Ambiente é considerado como "um Sábio respeitado e bondoso, cujos textos são sagrados" pelos membros da F:.M:.K:.R:., apesar de tal fato não ter sido comunicado ao Professor Pierre Weil.

 

A ENERGIA ESPIRITUAL

Falar em energia no que toca as manifestações espirituais corresponde á identificar o espírito com a energia em geral. Isto implica num conceito unitário da energia .
As recentes descobertas da física quântica e da genética nos levam a admitir tal hipótese. Mas a idéia não é tão recente, já que o renomado filósofo francês, Henri Bérgson, publicou um compêndio de escritos e conferências sob o título: "A Energia Espiritual".(9).


De fato a matéria é energia, uma partícula subatômica é ao mesmo tempo Luz, ou melhor ainda, a luz se manifesta sob forma de partículas que são ao mesmo tempo ondas. Tudo no universo é energia, a mesma energia que se manifesta de três formas diferentes: matéria, vida e informação. Esta trilogia também constitua o ser humano sob forma de corpo, emoções e espírito.

Mais refinada e invisível a energia e mais poderosamente ela se manifesta. Como o afirmou a educadora Helena Antipoff, é o espírito que fez explodir a bomba atômica; logo o espírito é mais poderoso do que a própria energia nuclear.


O aspecto energético do espírito é uma questão que vem sendo levantada por um novo ramo da psicologia, a psicologia transpessoal que está á descrever um estado de consciência, o estado transpessoal, em que estão percebidos e vivenciados fenômenos luminosos. O estado transpessoal é o que é designado nas tradições religiosas como a experiência própria dos místicos. Já Bergson, no início deste século não exitou em falar de energia neste caso. Eis o que ele afirmava, falando dos místicos e da experiência do Divino: " É evidente que eles entendem por aquilo uma energia sem limites fixos, , uma potência de criar e de amar que ultrapassa toda imaginação. "(9).


O estudo experimental do estado transpessoal tem levado a psicologia a evidenciar que este estado é acompanhado de modificações eletroencefalográficas e eletrocutâneas. Mais recentemente ainda, um neurologista, James Austin, intrigado por uma experiência transpessoal pela qual ele mesmo passou há uns vinte anos, resolveu estudar as modificações cerebrais o corridas durante a meditação budista tibetana. Ele encontrou correlatos de diferentes aspectos da experiência meditativa, entre outros:


  • A unidade cósmica ligada ao aquietar das atividades do lobo parietal,

  • Resposta á palavras religiosas na junção de três lobos ligados á linguagem,

  • Imagens sagradas que facilitam a meditação envolvem o lobo temporal inferior,

  • Emoções religiosas como alegria e graça são ligadas ao lobo temporal median.

  • Atenção ligada á concentração acende luzes no lobo frontal.


Destes estudos está nascendo uma neuro teologia. (10).
Eis como se afigura a questão da luz interiormente vivenciada na experiência transpessoal.


Continue lendo:  O QUE É ESSA LUZ? 

Bibliografia:9. Bergson Henri. "Oeuvres complètes". Paris. PUF. 1970. pp. 1198. - 10. Newsweek. " God in your Brain". may. 2001.Nota:Adaptação e ampliação de parte do livro do autor: Holística: Uma nova Visão do Real. pp. 97 e seg.

CONSCIÊNCIA - O SEU DESPERTAR?


Fala-se muito neste fim de século nos meios já inspirados por um novo paradigma cujas vistas estão voltados para o terceiro milênio do "Desenvolvimento de uma nova consciência"...
Na realidade esta expressão é inadequada pois esta consciência não tem nada de novo, e por conseguinte não há nada para desenvolver.

Quando falamos em Consciência, do ponto de vista holístico, nós nos referimos a um espaço luminoso, cuja característica essencial é ser consciente.


Por isto demos a este artigo o título de "DESPERTAR" e não de "desenvolvimento".

Espaço com conscencial constitui o SER a que muitos nomes de caráter divino se tem dado através dos tempos e das culturas, tais como Jahve, Deus Allah, Brahman, Tao, Natureza de Budha, e assim por diante. Mas recentemente se tem falado em Consciência Cósmica, Consciência, Universal, Espaço primordial, Consciência Transpessoal, Super Consciência, entre outros termos.

Assim sendo esta consciência tem um caráter universal, onipresente, onisciente e onipotente.

Esta consciência, pelo seu caráter de onipresença, se encontra também no ser individual, isto é de cada um de nós sem exceção. É a que chamamos de consciência individual. O termo é também usado como sinônimo de Espírito Universal e Espírito Individual ou mesmo alma Universal e Alma Individual. Por conseguinte, pelo seu caráter esterno ela não é nova.


Por esta razão demos aqui o título de despertar da consciência em vez de desenvolvimento, pois, mesmo no ser humano a consciência esta sempre aí.

Muitos vão perguntar porque não temos acesso a consciência individual, a esta presença em nós, se ela está sempre aí?


Embora sempre presente, ela está velada escondida por uma distorção dela mesma; a nossa mente, que emana dela, tende a criar uma miragem, uma ilusão, a da existência de um eu, separado dela e do mundo que se torna percebido como exterior. Cria-se então o que se chama de filosofia, a dualidade sujeito-objeto.


Esta dualidade gera por sua vez o apego ou a rejeição de coisas, pessoas ou idéias que nos causam respectivamente prazer ou dor. Isto leva ao estresse, à doença, ao sofrimento, reforçando então o distanciamento da consciência.


Podemos sair deste círculo vicioso e recobrar a consciência?

A resposta é positiva. Sim, podemos despertar deste estado de sonolência. Como? Principalmente através da meditação. Esta consiste em sentar, em posição de coluna ereta, sem rigidez; concentrando-se sobre a respiração deixa-se os pensamentos aquietar-se, até aparecer o espaço consciencial, até despertar a plena consciência.


A plena consciência é acompanhada de um estado de Paz e de Plenitude e leva a verdadeira Sabedoria e Compaixão por todos os seres ainda no estado de inconsciência.

AMOR: ENERGIA UNIVERSAL
O que a nossa humanidade mais precisa é despertar o Amor em todos os corações. Dilacerada pela violência, ela chegou perto do fundo do poço. E deste lugar, só lhe resta uma alternativa, é olhar para cima, em direção ao sol, à Luz da Sabedoria e ao calor do Amor.

O Amor do coração foi progressivamente abafado por quatro mil anos de dominação dos homens, que limitaram a participação das mulheres à família e ao lar. Resultou disto uma repressão dos valores femininos no Homem, e com eles o próprio Amor. A nossa cultura masculinista esta na raiz do desenvolvimento extremo das qualidades intelectuais mais particularmente da razão, que leva ao domínio absoluto da ciência e da tecnologia, e limita a educação ao puro intelecto. Os valores do coração e do espírito são desprezados e relegados à religião. Resulta disto um racha entre razão e coração. E chegamos aos extremos das aplicações frias da ciência através da tecnologia, à fabricação descontrolada de armas e ao seu uso na matança de seres indefesos no terrorismo ilegal e nas guerras legais, tanto faz. As empresas usam as tecnologias tanto a serviço de valores construtivos ou destrutivos desde que se obtenha o devido lucro.

O advento do movimento feminista levou as mulheres à saírem do seu lar para trabalhar fora. Isto faz com que, progressivamente, os valores afetivos penetram na empresa e no trabalho humano em geral. A preocupação masculina exclusiva pela efetividade, vem se integrar harmoniosamente o valor feminino da afetividade. A exclusividade de focalização empresarial pela produção, está se acrescentando um interesse cada vez maior pelas pessoas, isto é pela qualidade de vida de cada funcionário. É de esperar também que com o ingresso de mulheres na política, o Amor e a preocupação pelo ser humano tornem se cada vez mais central na gestão das sociedades O futuro desta gestão se acha num reencontro do masculino e do feminino em cada um de nos.

Tirar o amor da vida humana é ameaçar a própria vida no nosso Planeta. Pois a destruição ecológica é o resultado da falta de amor à Natureza, que leva o ser humano a um suicídio progressivo, o qual já começou.

O Amor é a força que sedimenta todos os conjuntos. A energia que liga entre elas as partículas do átomo é Amor, garantindo assim a existência da matéria.

O Amor é a energia que une as células formando os tecidos das plantas, dos animais e do nosso corpo.

O amor é a força que atrai os dois sexos garantindo a continuidade de todas as espécies, vegetal, animal e humana.
O Amor estimula a nossa criatividade insuflando o nosso entusiasmo pela vida e inspirando a nossa alma poética.

O Amor é o fator que proporciona a ternura dos casais e amizade entre pessoas.

O Amor é a liga das estrelas formando o Universo.

Onde há Amor é impossível a violência, o terrorismo e as guerras. Despertemos a todo instante o amor no nosso coração para todos os seres viventes. É a melhor contribuição que podemos dar para a nossa humanidade sair do atoleiro em que está enleada!


Publicado em 04/01/2013-Licença padrão do YouTube
 http://www.pierreweil.pro.br/Brazil.htm
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

terça-feira, 3 de junho de 2014

TEILHARD DE CHARDIN. O HOMEM DOS DOIS REINOS





 Pierre Teilhard de Chadin

 Teilhard na China 
 Pierre aos 12 anos 

Teilhard em Expedições




TEILHARD DE CHARDIN.
O HOMEM DOS DOIS REINOS

Paulo Meneses


“O homem dos dois reinos” é o título de um belo filme sobre S. Tomás
More: ilustre no reino da terra, como estadista, e no reino dos céus como
santo e mártir da fé.

Depois dele, ninguém mereceu mais esse título do que Teilhard de
Chardin, que se intitulava a si mesmo “filho da terra e filho de céu”. O reino
deste mundo no caso, não era o domínio político, como S. Tomás More, mas o
universo das ciências. No mundo político houve muitos santos; até reis foram
canonizados. Mas no mundo da ciência moderna, nascido fora da Igreja na
modernidade, e por ela perseguida literalmente “a ferro e a fogo”, quem
pensaria ser terreno propício a um santo, a um místico, que com igual ardor se
dedicasse às ciências modernas e à vida em Cristo? O reino político, ao
contrário, parecia um mundo a conquistar: a Igreja abraçou com sofreguidão o
poder oferecido por Constantino, e Pio Nono ainda no século 19, estigmatizou
os sacrílegos que propuseram que a Igreja abrisse mão da soberania sobre
grande parte da Itália e se dedicasse ao Evangelho. Através de Padroados,
Concordatas e outras astúcias se mancomunou com o poder dos reis, e dos
autocratas, lançando raios sobre as heresias que propugnassem a separação da
Igreja e do Estado.

As audácias de Teilhard
Foi assim um “trabalho de Hércules” e uma temeridade heróica, dedicarse
à ciência moderna e à sua construção, justamente num ponto sensível como o
evolucionismo e a origem do homem: quando a Igreja já tinha desistido de
combater o heliocentrismo de Galileu, e voltava seus fogos para novas
perigosas heresias das ciências como o evolucionismo, e logo depois a
psicanálise, e o que mais surgisse de novo. Pio Nono condenara no seu
truculento Syllabus quem dissesse que a Igreja devia reconciliar-se
com o mundo moderno, e Teilhard teve a má sorte de surgir no rescaldo da crise
modernista, quando Pio Décimo promovera violento expurgo da liberdade de
pensamento na Igreja, e fez pairar uma atmosfera de terror inquisitorial
sufocante. Felizmente, os tempos da inquisição “hard core” tinham passado,
Teilhard não corria o risco das fogueiras “dos bons velhos tempos”; as
fogueiras agora eram mais “softs” e mesmo metafóricas; e no entanto muito
poderosas para ameaçar o trabalho dos pensadores e do progresso.2

Qual é o segredo de Teilhard, que o fez saltar tantas fogueiras, sem um
assomo de medo?

Uma enorme magnanimidade, a “macropsia” tão admirada
por Aristóteles e S. Tomás. A uma grande alma como Teilhard, nada intimida
nem faz desesperar, porque tem no seu íntimo a certeza da verdade, e vê na
guerra que lhe movem, mal-entendidos e preconceitos ainda não superados.
Ainda não: essa expressão diz tudo e é a voz mesma da esperança: é a certeza
de que esses obstáculos do momento, o próprio tempo vai jogá-los
no lixo da  história. Não se perde por esperar.

Que culpa tinha Teilhard de ter chegado cedo demais, de estar à frente de seu tempo?

Mas, por outro lado, quem poderia prever que sete anos depois de sua morte,
o Concílio Vaticano II ia dar à sua Igreja essa abertura de espírito de que Teilhard
 fora precursor ?

Que iria reconciliar a Igreja com o mundo moderno?

 Que João 23 ia adotar sua terminologia e seus conceitos sobre a socialização, e que
 um de seus grandes amigos, de Lubac, que escreveu o melhor livro sobre sua vida e
 sua obra, ia ter um papel de grande relevo nesse Concílio?

Quem poderia prever que antes do fim do século, o papa João Paulo II ia declarar que
 o evolucionismo já não era hipótese nem teoria, mas uma aquisição definitiva da ciência?

Por isso Teilhard  não se abalava com as tempestades, mas como não
buscava sua glória e sim a verdade, dobrava-se como o caniço, na passagem
dos vendavais: fazia o que lhe mandavam, ia para onde o destinavam e lá
continuava seu trabalho de cientista. Que lhe importava ser proibido de
ensinar no Instituto Católico de Paris e mandado para China se ali ia pesquisar
o sinantropo e firmar definitivamente seu nome na ciência?

Que lhe importava que lhe proibissem de assumir um posto no Collège de France
e até mesmo de pisar em Paris? Nova York é um bom endereço, e coordenar pesquisas
arqueológicas na ONU, um belo desafio intelectual. E foi ali que morreu, na
Páscoa de 1955, esse sábio, esse santo, que as perseguições transformaram em
herói.

É verdade que a vida de Teilhard estava em oposição frontal com o Syllabus, pois não
 só defendia, mas tornava uma realidade, a “reconciliação da Igreja com o mundo moderno”.

Ainda assim não se explica claramente donde vinha tanta perseguição a
Teilhard. Um escritor tão fecundo e original não pôde publicar um só livro em
vida. E, contudo sua fidelidade a Cristo e à Igreja, e a lealdade para com sua
Ordem, nunca vacilaram. Uma hipótese plausível é que o Geral dos jesuítas o
admirava e procurava defendê-lo das investidas dos “dicastérios” romanos e
dos denunciadores que tentavam obter sua condenação. 3 Eram tempos de Pio12.

Dando-lhe menos visibilidade, escondendo-o por tantos anos no subcontinente
chinês, a milhares de léguas de Roma e de Paris (quando não havia ainda TV
mundial nem Internet) pensava preservá-lo e realmente conseguiu. Talvez as longas
 conversas que foi ter em Roma com seu superior deram a esse o pressentimento de
 que o tempo trabalhava em favor de Teilhard e  de seu pensamento. Se foi assim,
o Geral dos jesuítas acertou plenamente... Teilhard  como cientista Teilhard era um
paleontólogo dos mais  destacados de seu tempo. Estava  começando um doutorado
em sua especialidade,  quando estourou a primeira guerra mundial e foi convocado
 para defender sua pátria. Quatro anos de guerra, em que muito refletiu e
 escreveu. Na volta, acabou de redigir e apresentou sua tese de doutorado.

Suas pesquisas de paleontologia começaram pela Europa; no currículo elaborado por
ocasião do convite a integrar o “Collège de France ”, enumera um elenco impressionante
 de pesquisas realizadas de 1901 a 1945. Depois de um breve período de ensino no Instituto
Católico de Paris, donde foi afastado em nome da segurança doutrinária, Teilhard seguiu
para Pequim, numa missão oficial do Museu de Paris. Na China, teve um papel importante
 na descoberta e no estudo do “sinantropo”. Também viajou por todo o continente, indo até ao Turquestão, explorou mesmo a Índia e a Birmânia, visitou a Somália, a Etiópia e a ilha de Java.
Sua produção científica é imensa: cerca de 400 trabalhos, repartidos em 20 revistas científicas e publicados, depois de sua morte, em dez volumes (Ed. Walter, Friburgo da Brisgóvia).
Nos últimos anos de vida, uma fundação antropológica americana o chamou a Nova York
para coordenar a organização planetária de pesquisas concernentes à origem do homem.

Com a morte, sua estrela não se apagou: deixou no campo científico marcas definitivas.
Na China sua memória continua viva, como a do Padre Mateo Ricci. Em 2003, foi organizado
 um Colóquio em Pequim. O Museu de História natural fundado pelo P.Licent jesuíta, com quem Teilhard foi trabalhar em 1923, está agora transferido para um prédio moderno de vidro e
aço. Nesse Colóquio, os sábios chineses elogiaram o trabalho científico de Teilhard, por ter estabelecido uma ponte entre a cultura oriental e ocidental.

4Ressaltaram também a valorização que dava aos chineses, pois entre eles escolhia seus colaboradores e os formava, ao contrário de outros pesquisadores, demasiado ligados a seus
países de origem e que preferiam trabalhar com seus conterrâneos. O mesmo sábio chinês diz
que na China só se conhecia Teilhard como paleontólogo, e era como tal que ele se apresentava e trabalhava na China. Ignorava-se seu pensamento filosófico, que aliás estava todo por publicar (também na Europa). Para os chineses de hoje, Teilhard é o novo Mateo Ricci dos tempos modernos.

Teilhard não era paleontólogo de gabinete: era pesquisador de trabalho de campo, promovendo contínuas escavações com seus discípulos chineses. As descobertas lhe impunham uma constatação inelutável: A biosfera se organiza em uma complexidade crescente. E constata três evidências fundamentais a propósito dessa complexidade:

 “1) Um maior número de elementos diferentes;
2) uma organização mais complexa desses elementos
3) e uma unidade fundamental mais estreita que é a marca de um progresso mais avançado”.

Mas enquanto prossegue seus trabalhos de cientista, Teilhard aprofunda o
sentido do mundo e o de sua vida. Escreve em uma carta: “Quanto mais os
anos passam, mais começo a crer que minha função terá sido simplesmente, a
de uma imagem reduzida de João Batista, aquele que anunciava e chamava o
que devia vir. Ou ainda; suspeito que pedem de mim simplesmente para
ajudar uma alma nova a nascer no que já existe. Se me volto para o exame
objetivo dos fatos e de minha capacidade, termino sempre por concluir que o
me pedem é que, seguindo minha linha individual, seja “companheiro de
Jesus” mais a fundo. Se o grande Cristo é bem o que nós cremos, e se ele
deseja verdadeiramente servir-se de mim para pregá-lo, é nessa fidelidade que
virá buscar-me.”

O “sistema” de Teilhard
O grande espírito de Teilhard nunca se contentou com o estudo de detalhes e minúcias, de particularidades e singularidades, que é a obsessão dos “pósmodernos”.

Era um verdadeiro filósofo, e portanto, como queria Platão, era sinóptico: tinha seu olhar
fixo no todo, e qualquer elemento particular era visto na perspectiva da totalidade. Como
verdadeiro filósofo, era desafiado pelo problema “do uno e do múltiplo”. E sua concepção
era aí original: o “nada” de que tudo foi tirado, significava a “multiplicidade pura”, a
indiferenciação absoluta. Deus tirou o mundo do nada dando unidade a seres particulares,
na sua multiforme diferença. Sendo Deus a unidade pura, deu aos seres participar de sua
unidade, em si mesmos, e tenderem sempre para unidades mais amplas, pois todo o
movimento de subida, que Deus imprimiu nos seres desde o começo, é um movimento de “convergência”, como declara no seu aforismo que tudo sintetiza:
“Tudo o que sobe, converge”.

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Os átomos, que já são unidades de uma energia complexa, unem-se, permanecendo eles
 mesmos, na unidade de moléculas cada vez maiores. As moléculas subsistem permanecendo
elas mesmas, mas de alguma sorte transfiguradas na célula viva. As células vivas se unem,
 de novo, e se especializam – permanecendo elas mesmas em organismos cada vez mais diversificados. Processo de complexificação em que a união diferencia!

Mas o fenômeno não estaciona com a aparição das pessoas livr es, no limiar da reflexão.
A curva prossegue: As mônadas conscientes, as pessoas livres, se unem em um superorganismo, em um “ultra humano”1 , mas permanecendo elas mesmas de modo que a união deve fazer-se no nível da nova dimensão aparecida com o limiar da reflexão. Então a unidade que se procura e já começa a criar-se em torno de nós, não é um arranjo casual, e sim, feita “em uma escala nova e com novos recursos”. Trata-se mesmo de um superorganismo.

É preciso que as pessoas encontrem sua unidade sendo elas mesmas ainda mais pessoas, isso é, acentuando sua autonomia e transfigurando de maneira insuspeitada, sua personalidade, em uma “super pessoa”, à escala planetária.

Cada um desses níveis de organização (átomo, molécula, ser vivo, homem) existe em dependência estreita com os precedentes, porém traz uma novidade radical: são graus crescentes de complexidade, mas ao mesmo tempo um “centrar-se” do ser em si mesmo – graus de unificação e por isso, de autonomia relativa. Essa série orientada não é uma construção de nossa imaginação, porque suas etapas aparecem no tempo seguinte dessa mesma ordem de complexidade e de centramento, e essas duas características se traduzem em disposições materiais muitas vezes mensuráveis, em todo caso,
identificáveis.

Essa progressão não termina no homem, mas prossegue além dele nos modos de conhecimento e ação próprios do homem. É o movimento que Teilhard chama socialização. Socialização é um “retorno da humanidade refletida sobre si mesma” é um fato positivo que se situa no eixo evolutivo, pois o homem individual só é perfeitamente homem, só chega aos limites de si mesmo em uma solidariedade e pela solidariedade a todo humano, passado, presente e futuro. Deve-se ir conscientemente em direção de uma socialização que nos torna mais humanos, e é precisamente nessa socialização que a humanidade reencontrará sua alegria de viver. A curva da “complexidadeconsciência” manifesta a vinda de uma nova fase evolutiva: a socialização se define como “a forma última da evolução biológica em meio refletido”.

1 Teilhard explica o termo: “ultrahumano” exprime simplesmente a ideia de um humano prolongando-se além de si mesmo, sob uma forma melhor organizada, mais “adulta” que aquela que conhecemos” (Grupo zoológico humano, p. 147)

6 Sinais dessa socialização estão em toda a parte: no trabalho humano em que Marx em seu tempo detectou uma socialização crescente, e hoje tende a tornar-se um mundo unificado, uma rede de relações e de responsabilidades. O mundo do trabalho tende a ser um mundo de comunicações, onde se criam condições para maior acesso à liberdade, a uma vida mais pessoal, e ao progresso material e cultural.

As comunicações eletrônicas – telégrafo, telefone, rádio, televisão, e agora a Internet que Teilhard não conheceu, mas em que viria uma plena confirmação de seus sonhos – une os cérebros de todos os homens fazendo-os pensar e atuar em conjunto, como se fosse um supercérebro.

As informações em tempo real, como vimos há pouco na morte do papa – fazem que milhões
e milhões de pessoas participem das mesmas emoções, e interajam através dos continentes formando um só público, um enorme ser coletivo que tendencialmente abarca a humanidade inteira. Claro que o mal não está excluído nem exorcizado desse processo. Mas para Teilhard o mal não tem futuro, a vitória será do bem, e a humanidade socializada descobrirá, cada vez mais, que seu destino é a “amor ização”, isso é uma expansão de amor que una definitivamente nossa espécie humana, formando uma unidade de ordem superior de espírito e de liberdade.

Assim aquele impulso “para o alto e para o uno” que fez surgir em patamares sucessivos, os átomos e as moléculas, que confluíram nas células do ser vivo criando a incrível diversidade e união da biosfera em nosso planeta; e depois, a vida que como suprema realização viu surgir no homem a consciência e a liberdade, formando a noosfera, está agora dando um ultimo e decisivo passo unindo esses seres todos em uma unidade que tudo recapitula e sintetiza, pois isso é a reflexão, o Espírito, a comunhão de consciências.

O “metasistema” de Teilhard de Teilhard tivesse parado aqui, já teria avançado muito, e visto que a evolução é um fenômeno total, em que a biogênese se continua na noogênese, e a diversidade cada vez maior converge em uma unidade de ordem superior, agora no nível da “socialização”, ou “amorização”.

Porém para Teilhard tudo isso está imerso em uma transcendência e dela
recebe seu sentido. No começo de tudo, está Deus como o ponto Alfa, Deus
origem de todo ser, que fez nosso planeta literalmente explodir em formas
cada vez mais perfeitas de vida. E no termo de tudo, no ápice de seu
movimento e de seu sentido, está Deus como o ponto Ômega; ou Deus para o
qual tudo tende e que, repetindo Aristóteles, “move como objeto de amor”, ou
citando Dante, “O Amor que move o sol e as estrelas”. Na linguagem de S.
João, Jesus “sabendo que vinha de Deus e voltava para Deus”, está
descrevendo o itinerário de tudo o que é criado: a origem e o destino de tudo.

7 Então, para além dos patamares da biogênese e da  noogênese, deve-se
acrescentar a instância definitiva, a cristogênese. Aqui Teilhard foi buscar em
São Paulo sua ideia do Cristo cósmico, Cristo sentido da criação, seu ponto de
convergência e de união, que a tudo vivifica, que está trabalhando no íntimo
de todo ser e de toda a evolução, orientando-a para o Pai: o qual é justamente
o ponto Ômega, ao qual vai submeter-se  e entregar o seu Reino.

A cristogênese  é também um movimento de subida e de convergência, prenunciado pelas fases anteriores, mas que representa sua realidade definitiva: para Ele existe o cosmo, e só “por Cristo, com Cristo e em Cristo” alcança sua plena verdade e seu destino.

Não vamos desenvolver mais este ponto, pois estamos em uma semana de teologia, e certamente os teólogos de profissão já discorreram sobre a teologia de Teilhard. Teilhar d de Char din, o místico Teilhard de Chardin não era só um homem de fé, que acreditava em coisas que estão além de sua experiência humana, confiado na palavra de Deus. A mística é uma experiência de Deus; diferente da oração em que a alma se eleva a Deus, objeto da fé; é uma experiência de Deus, outorgada pelo próprio Deus: Deus invadindo a consciência humana, absorvendo a alma em seu amor, por isso a experiência mística está geralmente associada ao êxtase. Nessa contemplação infundida do alto, Deus se comunica, e essa experiência é indizível: não tem tradução em linguagem humana. Uma analogia seria a contemplação ou intuição estética: uma obra prima, uma música, por exemplo, não se traduz em palavras: invade nossa alma e a eleva a um estado de deslumbramento que não cabe em nenhum discurso.

Por exemplo, S. João da Cruz, que era bom poeta além de místico, fez poemas sobre sua experiência contemplativa: mas suas poesias não transmitiam o segredo da comunicação de Deus à sua consciência; eram, por assim dizer, um “efeito colateral”, sua alma que estivera imersa em contemplação, vibrava em acordes de poesia como um reflexo ou um eco de sua experiência mística; mas qualitativamente diversa, pois uma vinha do alto, do Espírito de Deus, e a outra da consciência (e do inconsciente) do homem.

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Tem existido místicos em outras religiões e culturas: sempre se soube que os neoplatônicos, Proclo e Plotino foram místicos, que tinham êxtases divinos (patiens divina) e agora se fala de que Sócrates e Platão também o eram. Sobre Sócrates nesse ponto, há o belo livro de JeanJoël Duhot, que traduzi para a Loyola: “Sócrates ou o Despertar da Consciência”

Sabe-se que o filósofo ficava durante horas em êxtases, que lhe vinham quando menos esperava.

Sobre Platão, temos o testemunho de uma grande mística e filósofa, Simone Weil, que via nele não só um místico, mas uma das fontes da mística cristã (ver Síntese, n° 101, p. 357). Isso era uma das causas do ódio que lhe movia Heidegger, na esteira de Nietzsche: esse lançava em Platão o supremo insulto de ser um “semita” isso é um “judeu”, um horror para esse precursor do nazismo. Quanto a Heidegger, que era nazista mesmo, e mudou toda a sua interpretação de Platão quando descobriu nele laivos de cristianismo, que a partir dos anos 30 passou a odiar (ibidem). Houve também grandes místicos
entre os muçulmanos, pois a religião de Maomé nada tem a ver com Al Qaeda e terrorismo chiíta ou sunita, como espalharam os americanos depois da catástrofe das Torres gêmeas. Como ignorar a imensa contribuição que os árabes deram à cultura européia?

Mas segundo Bérgson, em um dos mais extraordinários livros do século
20, “Les Deux Sources de la Morale et de la Religion”(minha edição é a 33ª,
de 1941) diz que

 “O misticismo completo é o dos grandes místicos cristãos.
(...) Uma imensa corrente de vida se apoderou deles; e dessa vitalidade
acrescida desprendeu-se uma energia, uma audácia, um poder de concepção e
de realização extraordinárias.

 Que se pense no que realizaram no domínio da
ação, S. Paulo, S. Teresa, S. Francisco, S. Joana d’Arc” (p. 240).

Bérgson conheceu Teilhard, 
com quem muitas vezes dialogou. 
Essa descrição do místico cristão coincide tão bem com Teilhard, que se pode
pensar se não era nele que Bérgson se inspirava.


O texto místico mais importante de Teilhard é “A Missa sobre o mundo” que Teilhard fez quando estava no deserto de Ordos, (China) numa expedição científica e não tinha condições de celebrar a missa na festa da Transfiguração que ele particularmente amava. Para ele, a presença de Cristo na Eucaristia transbordava da hóstia sobre o mundo.

“Para além da hóstia transubstanciada, 
a operação sacerdotal se estende ao cosmo inteiro”. 

“A transubstanciação se expande em uma divinização real, 
embora atenuada, de todo o universo. 
Do elemento cósmico onde está inserido, 
o Verbo age para subjugar e assimilar a si todo o universo”. 

“A Eucaristia opera, além da transubstanciação do pão, 
o crescimento do Corpo místico, e a Consagração de todo o cosmo”.
 
O texto é de grande vibração mística e de muita beleza literária. Vejamos seu começo:9

“Senhor, já que uma vez ainda, não mais nas
florestas da França, mas nas estepes da Ásia, não tenho
pão, nem vinho, nem altar, eu me elevarei acima dos
símbolos até à pura majestade do Real, e vos oferecerei,
eu, vosso sacerdote, sobre o altar da terra inteira, o
trabalho e o sofrimento do mundo”.
“O sol acaba de iluminar, ao longe, a franja extrema do primeiro oriente. 
Mais uma vez, sob a toalha móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra desperta, freme, e recomeça seu espantoso trabalho. Colocarei  sobre minha patena, meu Deus, a messe esperada desse novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que hoje serão esmagados.

“Meu cálice e minha patena, 
são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que, 
em um instante, vão elevar-se de todos os pontos do Globo e convergir para o Espírito”.
“Outrora, carregava-se para vosso Templo
 as primícias das colheitas e a flor dos rebanhos. 
A oferenda que esperais agora, aquela de que tendes 
misteriosamente necessidade cada dia, para aplacar
vossa fome, para acalmar vossa sede, não é nada menos 
do que o crescimento do mundo impelido pelo devir universal”.

“Recebei. Senhor, 
essa hóstia total que a criação,
movida por vossa atração, vos apresenta na nova aurora”.


[ O texto continua, sempre comovente, mas é muito longo para ser lido na
totalidade.]

Vem em seguida a passagem do fogo, certamente uma “visão” de Teilhard,
seja como for entendida. Entendo-a como aquelas visões de Ezequiel, ou
como as epifanias do Apocalipse. Sua visão era a do fogo que descia sobre a
terra e a penetrava toda, fazendo-a capaz de produzir a vida por todos os seus
poros. O livro do Gênesis descreve que o Espírito (o vento de Javé) pairava
sobre as águas para que delas brotasse a vida. Aqui, no registro dos dois outros
elementos, (fogo e Terra) é a mesma visão: o fogo de Deus penetra na Terra
para que ele se torne a Mãe de todos os viventes. “Irmão Sol, Irmã Lua”, dizia
Francisco. Teilhard diz a “Mãe Terra” que ama como se fosse seu filho.

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Para ele, estava esse mundo material totalmente impregnado de Deus, e na
verdade, trabalhado em todos seus elementos pela presença de Cristo, como
se fosse um prolongamento de seu próprio corpo, ou como se tendo assumido
um corpo humano, por irradiação tivesse atingido todo o mundo material, que
se tornou seu grande corpo cósmico. Pois Cristo tinha a missão de fazer
convergir tudo para o Pai, e para isso se inseria em tudo, dandolhe
esse impulso a Deus a quem iria tudo entregar como também a si mesmo, no final
dos tempos. A mística de Teilhard era, como toda a autêntica mística cristã,
cristocêntrica. Só que, à diferença dos outros místicos, sentia a Cristo no
palpitar da vida, na deriva e borbulhar da evolução. 

“Calai-vos florinhas, pois á si que é de Deus que me falais” 
dizia S. Inácio. 
Teilhard teria uma linguagem diferente:
“ crescei e subi criaturas todas, 
abri-vos em diversidade e convergi para a unidade, 
pois em Cristo que está no mais íntimo de tudo,
 e em que tudo encontra sua consistência, sinto que confluis para Deus”.
Para terminar vejamos mais alguns textos da “Missa sobre o mundo” (p.53ss).
“Cristo glorioso, influência secretamente difusa no seio da Matéria e Centro deslumbrante 
em que se ligam todas as fibras inúmeras do Múltiplo; 

Potência implacável como o Mundo e quente como a Vida; 
Vós que tendes a fronte de neve, os olhos de fogo, os pés mais irradiantes que o ouro em fusão; 

 Vos cujas mãos aprisionam as estrelas, 
Vós que sois o primeiro e o último, o vivo, o morto e o ressuscitado:

Vós que reunis em vossa unidade todos os encantos,
 todos os gostos, todas as forças, todos os estados: 
é por Vós que meu ser chamava com um desejo mais vasto do que o universo:
Vós sois verdadeiramente meu Senhor e meu Deus!”

“Encerrai-me em Vós, Senhor!”
“Toda minha alegria e meu êxito, toda a minha razão
de ser e meu gosto de viver, meu Deus, estão suspensos a
essa visão fundamental de vossa conjunção com o Universo.
Que outros anunciem os esplendores de vosso puro Espírito! 

Para mim, dominado por uma vocação
que penetra até ás últimas fibras de minha natureza, eu
não quero, eu não posso dizer outra coisa que os
inúmeros prolongamentos de vosso Ser encarnado
através da matéria: jamais poderia pregar senão o
mistério de vossa Carne, ó Alma que transpareceis em
tudo o que nos rodeia!”
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“Ao vosso Corpo em toda sua extensão, isto é, ao
Mundo tornado por vosso poder e por minha fé o crisol
magnífico e vivo em que tudo aparece para renascer, eu
me entrego para dele viver e dele morrer, ó Jesus ”.
 
Fontes:
Unicap
 www.unicap.br/neal/artigos/Texto5PePaulo.pdf