quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

BERGSON: A CONSCIÊNCIA E A VIDA :










Bergson: A Consciência e a Vida
Marcos Lyra


Marcos Lyra descreve a concepção bergsoniana de consciência como antecipação e predição, união entre passado e futuro.
Bergson - A consciência e a vida

Determinados pelo propósito de acompanhar, e tornar clara, uma linha argumentativa no que concerne à questão da consciência, da maneira como foi desenvolvida por um dos mais influentes pensadores do séc. XX, apresentamos aqui o presente artigo. Tentamos colocar de maneira sucinta em que consistiram as linhas de pensamento seguidas pelo autor em seu intento de trazer respostas a este campo. Os trechos constantes do original estão entre aspas. A interpretação do texto é permeada por inconsistências insuperáveis, assim como traz por vezes a posição destes estudantes em relação ao seu sentido e significado. Entretanto, acreditamos ter exposto uma perspectiva bem fundamentada, a respeito de um tema de suma importância para a psicologia.


Em Conferência proferida na Universidade de Birmingham, em 29 de maio de 1911, o filósofo francês Henry Bergson (1859 - 1952) expôs as suas principais linhas de pensamento no que se refere a uma tentativa direta de enfrentar o problema da consciência e descobrir quais os principais fatos ligados à sua definição. Após avaliar o valor dos métodos tradicionais de pensamento filosófico, nominadamente compostos pelos seus sistemas vigentes, Bergson renuncia a qualquer apoio que eles posssam fornecer-lhe, e decide embarcar num processo direto e expontâneo de investigação, sem preocupar-se com questões epistemológicas ou ontológicas que pudessem se apresentar a priori e obscurecer o real propósito de sua tarefa.


Inicia, então, ele, com a afirmação de que quem diz espírito, diz, antes de tudo, consciência, e faz a pergunta: "o que é a consciência?".
Para não tentar uma definição que, neste momento, fosse mais clara do que ela própria, ele relata seu traço mais aparente: consciência significa principalmente memória. Apesar de todas as falhas e variações possíveis, memória e consciência estão definitivamente unidos, sendo até mesmo difícil, em certo sentido, distingui-los como coisas distintas.


Uma pretensa consciência que não envolvesse uma certa conservação do passado pereceria e renasceria a cada instante, e isso seria a própria definição de inconsciência. Consciência é, pois, memória, como "conservação e acumulação do passado no presente".


Em seguida, ele considera o caráter de futuro envolvido na consciência.
A atenção é uma expectativa ao que vai ser, e sem essa não há consciência. Temos, então, consciência como a soma da antecipação e da retenção. O presente não existe, pois é apenas uma idealização, uma idéia falsa tentando explicar uma aparência do real e uma impossibilidade matemática. "O que percebemos de fato é uma certa espessura de duração que se compõe de duas partes: nosso passado imediato e nosso futuro iminente". Pode-se dizer, então, que a consciência é o traço de união entre o que foi e o que será, uma ponte entre o passado e o futuro.


Em seguida Bergson pergunta-se, agora já de pose de alguma base inicial sobre a noção de consciência ligada a nós, qual a sua função, para então verificar se existem relações entre consciência e vida. Lembra que costuma-se dizer que a consciência está ligada a um cérebro. Mas, mediante uma inspeção rigorosa, veremos que não há relação necessária entre a existência de um determinado tipo de órgão e a presença do fenômeno consciente. Ele explica: "...não devemos supor que se, no topo da escala dos seres vivos, a consciência se fixava em centros nervosos muito complicados, ela acompanha o sistema nervoso ao longo desse descenso e que, quando a substância nervosa enfim se funde numa matéria viva indiferenciada, a própria consciência aí se espalha, difusa e confusa, reduzida a pouca coisa, mas não reduzida a nada?" Conclui, então, que tudo o que é vivo poderia ser consciente, e que a consciência é coextensiva à vida.


Segue-se, agora, a questão sobre se de fato as coisas são como concluídas acima, e se são possíveis variações no nível de consciência, se ela está sempre presente na vida, ou se ela pode "esvair-se e adormecer". Afirma, nesta direção, que no ser consciente que melhor conhecemos, é por intermédio do cérebro que a consciência trabalha.


Lembra que a ele está ligada uma medula espinhal que é capaz de realizar movimentos mais ou manos complexos. Estes são executados como respostas imediatas a estímulos externos. Mas há casos em que a excitação sobe primeiro ao cérebro e depois depois desce novamente. Por que este desvio, esta intervenção cerebral entre aquilo que em muitos casos são apenas respostas imediatas a estímulos definidos? 


O cérebro está em relação com todos os mecanismos da medula espinhal, e recebe uma infinidade de excitações de toda espécie. "É. Pois, uma encruzilhada, onde a estimulação vinda por qualquer via sensorial pode seguir por qualquer via motora. É um comutador que permite lançar a corrente vinda de um ponto do organismo na direção de um aparato de movimento esboçado à vontade." Por conseguinte, o motivo principal desse desvio da excitação em direção ao cérebro se refere a uma opcionalidade. Este órgão não tem nenhuma função no organismo humano a não ser como fonte de opções, gerador de possibilidades, elemento de indeterminação nas relações de causa e efeito que envolvem o corpo em sua relação com o ambiente. A excitação vai então acionar um mecanismo motor que tenha sido escolhido, e não ape

nas sofrido. O cérebro é um órgão de escolha.
Descer na série animal sem dúvida revelará uma distinção cada vez menos nítida entre as funções corporais e mentais, entre escolha e automatismo, entre opção e determinação. "...a reação se simplifica o suficiente para parecer quase mecânica; entretanto, ela hesita e tateia ainda, como se permanecesse voluntária." A faculdade de escolher regride tão logo descemos no nível da escala evolutiva animal.
Com esta última linha Bergson diz estar completa a conclusão a que anteriormente havia chegado: "...se a consciência retém o passado e antecipa o futuro, é precisamente, sem dúvida, porque ela é chamada a efetuar uma escolha: para escolher, é preciso pensar no que se poderá fazer e lembrar as conseqüências, vantajosas ou prejudiciais, do que já foi feito; é preciso prever e recordar."
As próximas questões a serem abordadas são a da amplitude do fenômeno, e de se todos os seres vivos são conscientes. De posse do que havia sido dito sobre esta faculdade cerebral de prever e lembrar, para orientar os movimentos musculares, é feita uma relação entre movimento e consciência. Todos os seres vivos possuem, "de direito", a faculdade de se mover espontaneamente, porém muitos renunciam a ela, e passam a subsistir de maneira estática, sem deixar de com isso obter sucesso enquanto manutenção de sua forma de organização. Não havendo necessidade de movimento, não há necessidade de previsão, nem lembrança: "Parece-me, pois, verossímil que a consciência se entorpece quando não há mais movimento expontâneo e se exalta quando a vida se apóia na atividade livre." Podemos verificar em nós mesmos a aplicação de tal princípio: quando realizamos um movimento repetidas vezes, a ponto de que se torne de fácil execução e seja então automatizado, imediatamente a consciência, no que tange a ele, se esvanece. Por outro lado, quando nos encontramos em momentos de crise e entramos em considerações que sejam da alta relevância para nossa vida, encontramo-nos diante de um problema basicamente de dificuldade de escolha de opções entre tantas que são possíveis, e aí aparece, então, com toda a intensidade, o que chamamos consciência. Há uma relação direta entre esta e aquilo que é escolha, ou, se quiser, criação.


"Tudo leva a crer que é assim para a consciência em geral. Se consciência significa memória e antecipação, é porque consciência é sinônimo de escolha. Na sua trajetória evolutiva, um eventual ser que começa como algo parecido a uma geléia pode seguir o caminho do movimento e ação: este é o caminho do risco e da aventura, e também da consciência. Ou antão pode abandonar as faculdades de agir e escolher, cujo esboço ele trazia, e obter o que precisa na imobilidade. É a existência tranquila, assegurada, torpe, inconsciente. A primeira, grosso, modo, é a do mundo animal, e a segunda, a do mundo vegetal.


Podemos verificar, então, as implicações disso numa perspectiva mais ampla, que envolva as noções da mecânica universal. A matéria, tomada apenas em si própria, comporta-se de maneira fatalista e determinada.
Tomássemos um sistema em sua integridade, e conhecessemos todos os fatores e leis envolvidos, poderíamos calcular seus próximos estados. À materia relaciona-se diretamente a inércia, a geometria, a necessidade, a ordem, a determinação. "Mas com a vida aparece o movimento imprevisível e livre. "O ser vivo escolhe ou tende a escolher. Sua função é criar. Num mundo em que todo o restante está determinado, uma zona de indeterminação rodeia o ser vivo. Como, para criar o futuro, é preciso que algo dele seja preparado no presente, como a preparação do que será só pode ser efetuada utilizando-se o que já foi, a vida se empenha desde o começo em conservar o passado e antecipar o futuro numa duração em que o passado, presente e futuro penetram um no outro e formam uma continuidadde indivisa: esta memória e esta antecipação são, como vimos, a própria consciência. E esta é a razão, de direito, se não de fato, de que a existência seja coextensiva à vida".
Existe uma noção, no próximo ponto da conferência, que poderíamos chamar de bioquímica ou energética, e que se refere ao armazenamento de energia, e à maneira pela qual ela é aproveitada. Executar um movimento significa entes de mais nada transformar em mecânica a energia acumulada anteriormente, por outro organismo. Nisso, animais e vegetais se diferenciam. 


A vida consiste num processo árduo e gradual de transfomação e acumulação de energia, e posteriormente seria natural esperar uma busca de eficiência neste processo. Temos, então, de considerar, agora, a relação entre esta acumulação de energia, entendida também como acumulação de causas ou determinações a acometerem determinado organismo, e o momento de sua liberação. Para o homem de ação, quanto maior a porção de passado que adere a seu presente, tanto mais pesada será a massa que ele joga no futuro para comprimir as eventualidades que se preparam: sua ação, semelhante a uma flecha, dispara tanto com mais força para a frente quanto mais sua representação estava vergada para trás.

Vejamos, então, como se comporta a consciência, diante da matéria que a acomete, sendo assim percebida pela mesma. Um único instante desta percepção abarca um número altíssimo de estimulações, que, consideradas como efeitos, envolveram por sua vez uma quantidade gigantesca de outros efeitos, numa seqüência que tende ao infinito. Mas não haveria possibilidade de consciência se essa multiplicidade, esta infinidade de causas, ou de componentes de estimulação fossem tomados por objetos individualizados, pelo ente que percebe.

Para uma mente, a noção de tempo está relacionada a uma série de condições cognitivas, e é apenas uma mera representação, ou analogia, como fenômeno mental. Caso a matéria percebesse, levaria séculos para fazê-lo em relação a um simples facho luminoso. A própria noção de consciência como presença de passado e futuro confirma esta manipulação temporal. E assim é que o fenômeno acaba sendo também uma condensação, de um brilho luminoso, digamos, a um único objeto, recortado e isolado do restante. 

O padrão físico, para a consciência, passa a ser coisa, e passível de ser percebido, conscientizado. Segundo Bergson: "Quando abro os olhos para fechá-los em seguida, a sensação que experimento, e que se dá em um de meus momentos, é a condensação de uma história extraordinariamente longa que se desenrola no mundo exterior....Colocada na confluência da conciência e da matéria, a sensação condensa na duração que nos é própria, e que caracteriza a nossa consciência, imensos períodos do que poderíamos chamar, por extensão, a duração das coisas".

Consideremos o ato consciente, ou a percepção que o prepara, e descobriremos a consciência como uma força que utiliza a matéria em seu proveito, sendo assim por duas vias complementares. De um lado a liberação de energia acumulada. De outro, a condensação, em um instante único do número incalculável de pequenos eventos que a matéria realiza, e que resume numa palavra a imensidade de sua história.


A teoria da evolução das espécies é considerada, por Bergson, como pressuposto incontestável a respeito da origem da estrutura e diferenciações entre os organismos vivos. Mas mesmo assim ela não era suficiente para explicar de que maneira alguns organismos seriam compelidos a adquirir formas de organização cada vez mais complexas. Os organismos rudimentares estão tão bem adaptados quanto o nosso às suas condições de existência. Além disso por muito tempo nossos antecessores foram tão simples quanto muitos organismos observados atualmente, porém não mantiveram sua condição posteriormente. Para Bergson, a vida é arrastada por um elã, uma espécie de compulsão que a leva através de riscos cada vez mais graves, em direção a uma eficácia cada vez maior.


Em duas de suas linhas foi alcançado um "êxito incontestável.", parcial num caso, relativamente total no outro. E nisso ele está se referindo aos artrópodes e vertebrados. Conclui Bergson: "...estamos, pois, autorizados a crer que a força que evolui traz originalmente em si, mas confundidos, ou melhor, implicados, um no outro, instinto e inteligência.


Em suma, as coisas se passam como se uma imensa corrente de consciência, em que se interpenetrariam virtualidades de todo gênero, houvesse atravessado a matéria para conduzi-la à organização e para fazer dela, que é a própria necessidade, um instrumento de liberdade."

Porém a matéria sempre continua a rodear a consciência, prendendo-a em seu próprio automatismo. Em certas linhas evolutivas, encontraremos inconsciência e automatismo, e em outras, a consciência proporciona ao indivíduo algum sentimento, e em conseqüência, alguma escolha. "Mas as necessidades da existência lá estão para transformar o poder de escolha num simples auxiliar da vontade de viver." No caso do cérebro do homem, entretanto, efetua-se um salto brusco: apesar de parecer-se com o do animal, neste a cadeia se rompe, e ele possui a particularidade de poder opor a cada hábito contraído um outro hábito, e a todo automatismo um automatismo contrário. Em seus termos: "A liberdade, recobrando-se enquanto a necessidade está às voltas consigo mesma, reduz a matéria ao estado de instrumento.


É como se ela houvesse dividido para reinar."
Concluiu-se, assim, a exposição de Henry Bergson, dentro desta conferência, relativa às suas concepções a respeito da definição de consciência, que então foi base para que ele discorresse também sobre a vida e seu mecanismo fundamental, assim como seu significado perante a natureza e o homem. Dentro de um caráter que se poderia chamar de metafísico, ele relaciona com grande precisão e agudeza uma seqüência de fatos e conclusões que compõem as bases do problema. Apesar de trilhar um caminho altamente individual, os elementos desenvolvidos possuem relevância incontestável, e provocam conclusões surpreendentes e estáveis. Suas idéias certamente se mantém atuais, e enquadram-se dentro de uma história de investigações teóricas sobre a consciência, que iniciaram-se em sua época, e mantém-se vivas em nossos dias.


Li

Arquivado em:  Psicologia
Escrito por psicopr
 
 
Sex, 15 de Abril de 2005 17:22 

Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

BERGSON E A PERCEPÇÃO HUMANA ENTRE TRANSCENDENTE E IMANENTE.



A importância da percepção humana

na relação entre transcendente

e imanente: Bergson

Rodrigo Artur Medeiros da Silva


Embora Henri Bergson (1859-1941) talvez não seja muito conhecido e, consequentemente, comentado nas cadeiras filosóficas discentes da contemporaneidade, trata na sua obra “Matéria e memória” de um dos principais problemas enfrentados pela filosofia: a relação do transcendente com o imanente, através do corpo com o espírito.

A obra “Matéria e memória”, sobretudo na primeira parte cujo objetivo principal é mostrar o papel do corpo na seleção e, posteriormente, na representação das imagens, privilegia a memória[1]. Esta, segundo o autor, é estudada como uma ponte para a compreensão da relação corpo-espírito; deste modo, a superação das dificuldades do dualismo clássico, como pretende o autor sem, porém, descartar as dificuldades de um mo­nismo simplificador[2], pode ser concebida e até mesmo aceita mais facilmente.

Bergson não conceitua a matéria como algo misterioso, como ideia que transcende a representação humana[3]. Matéria, nesta obra, é entendida como conjunto de imagens existentes que podem ser vistas a olho nu; haja visto que começa seus escritos propondo uma seleção de imagens para que, posteriormente, o cérebro as represente. Para selecioná-las, o autor parte do pressuposto de que não conhece nada acerca das teorias da matéria bem como do espírito. Ora, para que algo seja selecionado, necessariamente, deve ser cognoscível. Logo, a seleção de imagens começa de seu próprio corpo devido, para este poder ser conhecido até mesmo em se tratando das “doenças interiores[4]”.

Todavia, o modo como essas doenças instauram-se no corpo humano deve ser examinado a fim de que, posteriormente, seja descoberto como elas se intercalam entre estímulos extrínsecos e movimentos que ainda serão executados visto que, segundo Bergson “o corpo pode e consegue causar mudanças nas imagens que o circundam[5]”. “O corpo é uma imagem que atua como todas as outras no mundo das matérias(…) Contudo, é uma imagem que se difere das demais por poder desenvolver o que recebe[6]”.

É possível que Bergson, ao defender este ponto de vista, esteja enfatizando a dimensão da racionalidade humana; isto se confirma, pois ao que parece, o autor tem traços racionalistas. Tanto é que o mesmo faz uma divisão e, ao mesmo tempo, uma distinção do conceito de memória: “a memória pura que é entendida como atividade espiritual, e a memória-hábito, de essência mecânica e material”[7]. A última tem como função primar pela adaptação dos comportamentos humanos em seu ambiente de vivência, enquanto a primeira conscientiza cada indivíduo sobre a importância do voltar ao passado.

E arraigado à totalidade do conceito de memória, Bergson ressalta a importância do cérebro. Este, segundo o autor, “não é – de modo simplista – o órgão da memória; em primeiro lugar porque não existe a memória (existem duas), e em segundo lugar porque Bergson acha inválida uma teoria das localizações”[8].

Se o cérebro se tornar algo análogo, em sua essência, não haveria representação de nenhuma imagem da matéria, pois “não há como buscar no movimento outra coisa além daquilo que não se vê”[9]. Dito isto, fica perceptível que “um dos papéis do cérebro é selecionar, conduzir ou inibir o corpo a movimentos”[10]. Também são confiadas às responsabilidades do cérebro as percepções, visto que estas dependem indubitavelmente dos nervos cerebrais – centrípetos e centrífugos – cujas funções são, respectivamente, o impulso de estímulos[11] para o centro[12] e a filtração, a absorção desses estímulos na razão.

Daí percebe-se, por hora, que as percepções humanas não dependem somente dos movimentos cerebrais, mas também da percepção da matéria: “a matéria compõe a memória”[13]. Porém, partindo do pressuposto bergsoniano de que o corpo é o centro de toda matéria, e não se podendo negar a existência de vários corpos, poderia então ser dito que cada corpo ao relacionar-se consigo mesmo influiria na forma comportamental dos outros corpos; diga-se de passagem: uma relação entre causa e efeito, sendo este proporcional a causa.
“Como se explica que as mesmas imagens possam entrar no mesmo tempo em dois sistemas diferentes, um onde cada imagem varia em função dela mesma e na medida bem definida em que sofre a ação real das vizinhas, o outro onde todas variam em função de uma única, e na medida variável em que elas refletem a ação possível dessa imagem privilegiada?”[14]

Trata-se de uma problemática do bergsonismo acerca da seleção das imagens. Bergson, como já fora citado, tenta combater uma dualidade entre o idealismo – matéria da memória – e o realismo – memória da matéria – uma vez que ao entender o primeiro, se voltado para o subjetivismo como aquele que tenta fazer com que a ciência seja causa da consciência, e o segundo como a separação desta causalidade, consequentemente a problemática da dualidade consegue ser decifrada, entendendo que simplesmente um tenta deduzir o outro.

O realista, apesar de partir do universo de imagens, de certa forma negando a centralidade de cada humano, é obrigado a constatar o “centro”, ao constatar as percepções. Daí parte o idealista, o qual centraliza as imagens a partir do seu corpo. Se o idealista quiser se remeter ao passado ou programar o futuro, terá que abandonar a idéia de corpo como centro das imagens e, ademais, deixar que a estrutura corpórea viva em função das demais matérias. Porém, pensando-se desta forma, poderia inferir como conclusão que tanto o pensamento idealista quanto o realista bastar-se-iam por si próprios.

Daí percebe-se, pois, que estas duas doutrinas – idealismo e realismo – exigem sobremaneira a percepção a qual, para Bergson, é entendida como conhecimento puro. É o que dá a entender o exemplo dos movimentos corpóreos, tratado em “Matéria e memória”: “(…) para que o corpo se movimente, é necessário o cérebro conhecer cada movimento a seu devido tempo, independentemente de conhecer a estrutura corpórea em sua totalidade”[15].

Esta argumentação se fundamenta, visto que ao partir do pressuposto de que o cérebro, tendo a função de comunicar, capta o que percebe. Ora, se uma ação pensante for indeterminada, pode ser justificada num erro de percepção do cérebro. E se percepção implicar lembranças, para que uma determinada coisa seja percebida, é necessário ao cérebro remeter-se ao passado. Logo, percepção será uma forma de explicar o presente através do passado. E é exatamente contra este tipo de argumentação que Bergson trabalha.

“Matéria e memória” propõe ao cognoscente no ato da seleção de imagens, que não se trabalhe apenas com a percepção no sentido de remeter-se ao passado, mas com a percepção pura, capaz de perceber, sobretudo, o presente, o momento do ato intelectivo. Para que a percepção se fite na imagem em sua totalidade, é necessário que, paulatinamente, o sujeito cognoscente faça as devidas críticas e diferenciações no objeto cognoscível.

Ainda com relação à percepção, Bergson trata de fazer uma diferenciação pedagógica acerca da conceituação da mesma; difere-as em percepção consciente e inconsciente. Como fora dito, essa diferenciação é dada apenas a título de maturação de conceito e aprofundamento de pesquisa sobre a importância da relação corpo e espírito a partir da seleção de imagens.

A visão bergsoniana sobre percepção consciente não é muito otimista. Há, segundo o autor, um empobrecimento considerável em se tratando de percepção consciente, uma vez que esta vislumbra a princípio o exterior, descartando a parte interior da matéria, na qual pode estar a essência, guardadas as suas devidas proporções. Logo, a percepção inconsciente é opostamente analisada à primeira.

Porém, o autor em sua análise positivifica algo no empobrecimento da percepção consciente, visto que através desta é que pode ser feito um discernimento sobre algo[16]. Enxerga uma correspondência rigorosa entre “percepção consciente e modificação cerebral”[17]: o cérebro sofre modificações no momento em que percebe algo de conturbado na matéria selecionada. E dessa correspondência é que advêm a indeterminação do querer.

E ainda, já quase fundamentando o seu pensamento acerca do papel do corpo na seleção das imagens, Bergson tenta desmistificar uma possível confusão psicológica que, a seu ver, pode existir entre a percepção pura e a memória. Parte do ponto de que os sentidos humanos têm necessidade de uma educação arraigada, referindo-se à percepção da matéria. Esta educação é que diferenciaria a memória no ato da percepção.

Tendo em vista que nenhum sentido consegue perceber imediatamente as coisas, chega-se às seguintes conclusões: somente com uma educação maturada é que os sentidos conseguirão perceber cada objeto em sua totalidade; alguns dos sentidos só conseguirão funcionar mais facilmente, captar o cognoscível, a partir do momento em que os nervos ópticos captarem, sobretudo, a essência da imagem e, por fim, que cada um dos sentidos tem a sua ação própria.

Conclui-se, portanto, que “percepção e matéria não devem simplesmente ser pos­tos em paralelo”[18].  Ao contrário, o cérebro e a matéria devem relacionar-se, intrinsecamente, pois de outra forma, não haveria como classificar sequer o corpo como matéria, visto que para esta ser entendida e, posteriormente, classificada de antemão deve ser percebida.

Referências

BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

G. Deleuze, Le bergsonisme, P.U.F, 1989. Disponível em www.acafif.com.br. Acesso em: 24.mar.2010.


Li
Fonte:
http://pensamentoextemporaneo.wordpress.com/2010/09/03/
a-importancia-da-percepcao-humana-na-relacao-entre
-transcendente-e-imanente-bergson/
Sejam felizes todos os seres. Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.