sábado, 1 de junho de 2013

BERGSON E A VIDA: CRIAÇÃO E MEMÓRIA - Mahler: Symphony No. 5 / Gergiev



 
Gustav Mahler: 

Symphony No. 5 / Gergiev · 

World Orchestra for Peace · BBC Proms 2010

Nuevamente, gran presentación del Maestro ruso Valery Gergiev 
junto a la Orquesta Mundial para la Paz interpretando la Sinfonía No. 5 de Gustav Mahler,
 en los Proms de la BBC 2010.
Great feature of russian Maestro Valery Gergiev 
with the World Orchestra for Peace, conducting Mahler's 5th Symphony 
at BBC Proms 2010.




Bergson e a vida: criação e memória

Textos selecionados do filósofo
 ajudam a entender seus labirintos do tempo

Regina Schõpke
 


O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) ficou conhecido, entre outras coisas, por se opor à teoria da relatividade de Einstein. Digamos que a noção de "espaço-tempo", trazida pelo físico alemão, foi posta em xeque de um modo muito profundo, ainda que a polêmica não tenha sido levada muito a sério pelos cientistas (que desde o século XIX vinham desautorizando a filosofia como saber). 

De qualquer modo, não é equivocado supor que essa discussão tenha influenciado o químico contemporâneo Ilya Prigogine que, como Bergson, se opõe à idéia de um tempo submisso à matéria ou associado a ela, defendendo a existência plena de um tempo em si, que corre sem cessar e é responsável pelo fenômeno da irreversibilidade (que quer dizer, em poucas palavras, que nada pode voltar ao seu ponto inicial, que nada pode andar para trás).

Sem dúvida, a filosofia de Bergson tem um valor inestimável, não apenas pelas questões que coloca sobre o tempo (entendido como duração contínua e ininterrupta), mas também por sua reflexão em torno da memória, da consciência e, sobretudo, da matéria. Defendendo a existência de um "élan vital" que cria incessantemente todas as coisas, Bergson acredita, tal como Darwin, na evolução do universo, embora no caso do filósofo francês essa evolução seja resultado da ação do élan ou impulso vital sobre a matéria bruta. Trata-se, na verdade, de uma "evolução criadora", onde tal impulso, ainda que seja uno, cria continuamente, a partir de séries divergentes, a novidade e a diferença. É nesse sentido que Bergson diz que "a vida é pura zona de  indeterminação".

É claro que as semelhanças entre Bergson e Darwin restringem-se apenas à idéia de evolução, já que para o primeiro existe uma teleonomia no interior da natureza, ou seja, uma intenção "a priori", uma finalidade que determinaria a evolução. Para Darwin, ao contrário, o acaso é o elemento determinante (ou um misto de "acaso e necessidade", como diria o biólogo Jacques Monod). Em poucas palavras, a evolução em Bergson tem um caráter progressivo, isto é, evoluir significa aperfeiçoar-se e, nesse caso, trata-se de um aperfeiçoamento da própria vida (que é entendida como um "em si", como um princípio vivificador, ou seja, ela é o próprio élan, o impulso vital). 

Sem dúvida, a filosofia de Bergson é dualista (como ele mesmo reconhece). Temos, de um lado, o élan e, de outro, a matéria bruta, ou seja, dois princípios: um espiritual e outro material. De qualquer modo, seja lá como for, a verdade é que suas noções de matéria e de espírito são bem pouco convencionais.

Pois bem, os que desejam compreender melhor a filosofia de Bergson, o livro Memória e Vida (lançado, recentemente, pela editora Martins Fontes) é uma excelente oportunidade. Trata-se, na verdade, de uma seleção - feita pelo filósofo Gilles Deleuze - de textos extraídos de suas principais obras. Um dos temas mais abordados no livro é exatamente o da duração. Inseparável da questão da memória, que deve ser entendida não apenas como uma faculdade individual (que pode ser acessada ou não), mas como uma dimensão específica do ser, como uma espécie de passado que aumenta sem cessar a cada presente que acumula, a duração pode ser definida como a continuidade indivisível da mudança. Em outras palavras, durar é existir de forma ininterrupta, do início ao fim, mas é também mudar incessantemente.

Dito de outra maneira: tudo para Bergson é movediço. Não existe, como para Aristóteles, uma substância que permanece a mesma, inalterada, por baixo das aparências e a despeito das mudanças. O próprio ser é devir, é movimento, é sempre outro, ainda que se mantenha coeso em seu contínuo caminhar pela existência. "Coesão" aqui não quer dizer que algo permanece igual, mas, sim que a duração é ininterrupta, como já dissemos.

Durar é sentir-se mudar a todo instante, é perceber os estados que se sucedem em nós. É por isso que quando Bergson trata da diferença entre lembrança e percepção, sua intenção é mostrar como o presente (que é aquilo que percebemos) não é algo que passa e apaga os anteriores, como pensam os defensores de um devir absoluto, mas é um "continuum", algo que se prolonga e que faz crescer o passado, tal como uma bola de neve. É isso que carregamos atrás de nós, é isso que constitui o nosso ser, o que já vivemos, o que já passou, visto que - no fundo - ele não passa jamais. 

Na verdade, o passado
 é o verdadeiro tempo em Bergson. 
É nesse sentido que é preciso entender que o passado não vem depois do presente ou a lembrança depois da percepção, mas que o instante ou o próprio presente não se dá sem se dividir em dois: em passado e em porvir. É como se fosse arrastado em direções opostas. Ele é presente no mesmo momento em que se torna passado (ou não haveria prolongamento e duração, mas sim descontinuidade e dissolução). Dessa forma, a lembrança não é uma percepção enfraquecida, mas algo de outra natureza, daí porque permanece viva enquanto a percepção desaparece.

Por fim, terminamos dizendo que, para Plotino, o tempo é a vida da alma e que, para Agostinho, ele é uma distensão do espírito, existindo apenas de um modo interior, psicológico. Para Bergson, no entanto, o tempo é - simultaneamente - inseparável da consciência e também - já que fluir é a essência do ser e de todo universo. Tempo é duração, duração é memória e memória é vida. E a vida, para Bergson, nada mais é do que criação contínua. Mas também é memória, memória de si mesma e de suas aventuras nos labirintos do tempo. 

*Regina Schõpke é filósofa 

e autora do livro Por uma Filosofia da Diferença: 
                                Gilles Deleuze, o Pensador Nômade.
Fontes:
(C) BBC and ALL their respective owners. No personal work here.

Publicado em 24/03/2012-Licença padrão do YouTube
 http://www.portaldoenvelhecimento.org.br/memoria/memoria8.htm
Jornal O Estado de S.Paulo - Caderno 2,06/08/2006

Nenhum comentário:

Postar um comentário